domingo, 5 de janeiro de 2025

THE HELM MAN

 

 

 

 THE HELM'S MAN

Life! Steer it like sailing!

 

Sailing and steering a boat is an excellent analogy with living and managing life. Here is a brief explanation of how the concepts of winds, currents and navigation can be applied to navigate life and take advantage of the conditions we encounter.

 

Set a destination: 

Just as navigators have a destination in mind when they set out, it's important to have goals and aspirations in life. Define what you want to achieve and where you want to go, as this provides direction and purpose. It never hurts to remember Seneca's maxim – “whoever does not know the port he seeks will never find favorable winds and ends up wandering as the wind takes him”.


Understanding the winds: 

The winds can be unpredictable and are constantly changing, as are the circumstances and opportunities we encounter in life. Observing and understanding the winds around us is identifying the external factors that condition our path. Likewise, being aware of external influences and the people we surround ourselves with, who can also be unpredictable, and others who appear by surprise, lead us to be cautious or take advantage of opportunities or avoid disappointments.


Adjust sails: 

To sail effectively, we must adjust the sails to better harness the power of the wind. Likewise, in life, adaptability is crucial. Being flexible and being willing to adjust plans and strategies when necessary is imperative. Accept the change and use it to your advantage. As a rule, a boat has a life of its own in the face of the winds, turning the bow towards the wind line, if we do nothing, it can tilt steeply until it stops sailing when it is aligned with the wind. We call it luffing. Lightening the sail when it is too tacked is called bearing off. What is certain is that we cannot let the boat runaway having to systematically luff or bearing off adjusting the sails, just as in our life, we must continually loosen or tack the sails and not let them run away. Let us always remember that on sailing, as in any business or profession, we cannot always take the direction we want or would like, but rather run with the winds or steer in a Z, to reach our destination safely.


Understanding currents: 

Currents can help or hinder a boat's progress. Likewise, life presents various currents such as trends, social norms, and cultural influences. Understand the currents around you and decide whether to flow with them or chart your own course. Use the currents to propel you where you want to go instead of being dragged along by them. Always remember that it is hard to overcome the currents and that you often must navigate obliquely to go straight. Facing demons, enormous obstacles or storms, or large enemies head-on is something for poets, not navigators.

 

Seizing Opportunities: 

Sailing requires taking advantage of the right opportunities. When favorable winds and currents arise, experienced sailors take the opportunity to make significant progress. In life and in your profession, recognize and take advantage of opportunities that align with your goals and values. Be prepared to take calculated risks and step out of your comfort zone whenever necessary. And be prepared to wait patiently for the winds and currents to change. 

Going against the wind and current is a waste of time and energy.


Patience and resilience: 

Navigating life or a boat requires patience and resilience, especially in adverse conditions. In life, there will always be challenges and setbacks. Cultivate resilience to bounce back from failures and setbacks, and exercise patience in times of uncertainty. Remember that storms eventually pass, and calm waters are ahead. And remember that no bonanza lasts forever. Adopt the stoic maxims Amor Fati and Premeditatio Malorum. Amor fati translates as “love for destiny”, and teaches us not to complain about what happens, but to accept challenges with courage and determination. The Premeditatio Malorum is the “premeditation of evils”, a stoic exercise in imagining what can go wrong or that can be taken away from us. So that we are never taken by surprise. For this very reason, every navigator prepares the boat before leaving for the sea, anticipating everything he may need.

  

Enjoy the journey: 

Navigating is not just about getting to your destination; as the Spaniard Antonio Machado Ruiz once taught us “el camino se hace caminando” (the path is made by walking), is also about enjoying the journey. The Mozambican Mia Couto also expresses this idea by stating that “it is not the destination that counts, but the path”. Likewise, in life, focus on the present moment and find joy in the experiences along the way. Appreciate the beauty, learn from the challenges, and value the relationships and experiences you build. By relating the principles of navigation to life, we can gain insights into how to navigate our journey. Embrace the winds and currents, adjust the sails, and make the most of the conditions you encounter, heading towards a fulfilling and purposeful life.

@SkipperPedro

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ateus. Homens de Fé!


Porque é necessário ter Fé para ser Ateu?

É uma interrogação que pretende demonstrar essa mesma proposição: é necessário ter Fé para ser Ateu. Ora sendo uma proposição sintética depende de definições e outras demonstrações para se apurar da sua validade conceptual.

A define-se segundo a Wikipédia como a “adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade sem qualquer tipo de prova ou critério objectivo de verificação, pela absoluta confiança que se deposita em determinada ideia ou fonte de transmissão”; ou ainda segundo o dicionário da Porto Editora, “a crença absoluta na existência ou veracidade de certo facto, convicção íntima e absoluta em algo ou em alguém; e ainda adesão aos dogmas de uma doutrina religiosa considerada revelada. Definindo-se dogma como uma proposição proclamada e incontestável imposta como irrefutável sem crítica nem exame admissível.

Ateu, segundo a Wikipédia define-se como “o indivíduo com ausência de crença na existência de quaisquer divindades pela falta de evidências empíricas que provem sua existência, e ainda segundo o dicionário da Porto Editora, “é um descrente que nega a existência de qualquer divindade”. Há várias categorias de ateus de acordo com a profundidade da convicção: Ateísmo Forte e Fraco, Positivo e Negativo, Prático ou Pragmático. Pelo que adopto a divisão preconizada pelo ateísta Richard Dawkins[1]: Deísmo, Agnosticismo e Ateísmo, que engloba dentro do Ateísmo todos os tipos de ateísmo e no Deísmo todos os teísmos.

Deus, por sua vez, define-se como um ser absolutamente perfeito, supremo criador de todo o Universo, que é omnisciente (sabe tudo), omnipresente (está em todo o lado), incorpóreo, dotado de asseidade (existe por si mesmo), eterno, inefável (inexprimível), uno e perfeito. Como é necessário estabelecer uma definição operatória de Deus que seja um máximo denominador comum, retirei omnibenevolência (bondade), dado tratar-se de uma característica suplementar do Deus cristão, entre outros, mas não universal. Com efeito um Deus satânico entra na categoria de Deus/Deuses, assim como Shiva o destruidor, e quanto ao Jehovah do Antigo Testamento, ao ordenar que o pai sacrifique o filho Isaac, ao condicionar maliciosamente a vida de Jacob, ao destruir cidades e dizimar populações, podemos inferir, ser tudo menos um Deus bondoso. Por outro lado, dentro da classificação das crenças em Deus(es) temos várias categorias: Politeísmo, Teísmo[2], Henoteísmo[3], Monoteísmo trinitário[4], Deísmo[5] e ainda o Panteísmo[6]. Doravante sempre que referir Deus reporto-me a qualquer crença em Um ou uma pluralidade de Deuses.

Pode-se, agora, com a precisa definição dos termos e conceitos reformular a proposição inicial, para o que substituímos o predicado e o sujeito pelas suas definições, gerando a mesma proposição de uma forma analítica. Assim:

Porque é necessária a adesão e crença incondicional a uma única hipótese não testável empiricamente para se negar a existência de qualquer ser absoluto e criador?

A ser demonstrada esta proposição, o ateu tem uma convicção irracional numa crença e, ou não é ateu, porque um ateu não pode ter fé, ou tem fé e não pode ser ateu, e em última instância vive uma contradição, conceptualmente impossível, uma vez que o mesmo sujeito simultaneamente não pode ser e não-ser.

Há três argumentos principais dos Ateus, quanto à inexistência de Deus.
O primeiro argumento ateísta não aceita a existência de Deus pela falta de evidências empíricas e os Ateus têm absoluta confiança nessa ideia sem subsequente exame ou critério objectivo de verificação.

1. Tudo o que existe pode ser verificado empiricamente (experimentalmente ou pelos sentidos).
2.     Não se consegue verificar empiricamente a existência de Deus.
Logo
3.     Deus não existe.

Por outras palavras, não acreditam em Deus porque não há provas, e têm a certeza incondicional e absoluta confiança nessa verdade, como se a falta de prova na existência fosse a prova da inexistência; estabelecendo um dogma.

O segundo argumento do Ateísmo baseia-se no princípio da causalidade universal. O universo é causal, a realidade não é mais que matéria ou energia, a qual através de uma longa série de coincidências (de baixo grau de probabilidade), evoluiu per se gerando estruturas de larga escala, incluindo a vida e a consciência, apenas um outro passo da deriva evolucionária cega e natural, pelo que Nós somos estruturas orgânicas conscientes resultantes das forças que nos rodeiam.

Podemos aceitar esta crença como válida?

A causalidade universal está devidamente testada, é verdadeira, todo o efeito precede de uma causa e é por sua vez causa de outro efeito numa cadeia ininterrupta de relações causa-efeito, onde qualquer manifestação sem causa é um milagre. O Universo é composto de energia também é uma verdade, a evolução está demonstrada, seja biológica, geológica ou cósmica, somos estruturas orgânicas ninguém põe em causa e somos tremendamente condicionados pelas forças do meio envolvente também.

Apenas três coisas não estão provadas na proposição da crença ateia: uma que a deriva evolucionária seja cega, a segunda que as leis que regem o cosmos e a evolução sejam autogeradas e a terceira, que por muito que se esforcem em replicar as condições de criação de vida, ou outras, não conseguem experimentalmente provar que um relojoeiro cego seja capaz de criar com equilíbrio e estética, as estruturas da natureza tais como as conhecemos. Isto é, não está estabelecido nem a razão consegue deduzir que as leis da natureza sejam fruto da evolução, sejam cegas e autogeradas, nem conseguem replicar experimentalmente a criação. Há, portanto, na crença ateísta, um dogma não provado empiricamente já que, por exemplo, as leis da natureza e da evolução, ditas as regras do jogo, tanto podem ser autogeradas (como Deus dotadas de asseidade), ou programadas e regidas por uma entidade criadora. Não havendo qualquer prova da sua autogeração, temos de a considerar probabilisticamente semelhante à hipótese da programação. Ora sustentar uma crença sem a conseguir validar empiricamente e transformá-la num Dogma, é precisamente uma questão de Fé.

O terceiro dos grandes argumentos ateístas é o problema do Mal, que se desenvolve no argumento seguinte:

1.     Se existisse Deus, não haveria mal no mundo.
2.     Há mal no mundo (por observação).
Logo
3.     Não existe Deus.

Este argumento é aparentemente válido, se considerarmos verdadeiras as suas premissas. 

Vejamos se decomposto e tornado analítico, nos apresenta a mesma conclusão e para esse efeito desenvolve-se um argumento de apoio à primeira premissa:

i)                Um ser moralmente bom impede todo o mal que tenha o poder e oportunidade de impedir (da definição de bondade);

ii)     Um ser omnipotente tem o poder de impedir todo o mal (da definição de omnipotência);

iii)      Um ser omnisciente, omnipresente e eterno, que é o criador de tudo, tem a capacidade de impedir todo o mal;

iv)        Deus é por definição omnipotente, omnisciente, omnipresente, eterno e o criador de todas as coisas e seres (do conceito de Deus);

Logo,

v)              A existir Deus não haveria mal no mundo.

A Premissa ii) provém da definição comum de omnipotência e leva à dedução que o mal poderia ter sido evitado na criação do mundo e a todo o tempo.

As Premissas iii) e iv) completam a Premissa ii), pois um ser com essas características teria a oportunidade desde a criação e a todo o tempo de excluir o mal, pois um ser eterno existe em todas as épocas, está em todo o lado e sabe tudo o que queira saber. Não lhe falta o motivo, nem o conhecimento, nem a oportunidade.

Resta a Premissa (i)!

Em primeiro lugar ela não se identifica com a dedução do argumento que deveria ser: “Donde, não tem a oportunidade de impedir todo o mal”; situação que se afigura paradoxal no âmbito de todos esses poderes que Lhe são atribuídos, mas que poderá ser menos paradoxal se acrescentássemos à premissa (i) o critério da vontade, reescrevendo-a “Um ser moralmente bom impede todo o mal que tenha a vontade e/ou o poder e e/ou a oportunidade de impedir”, configurando uma dedução (v) Segue-se que, ou Deus não existe, ou não existe com os poderes comumente atribuídos, ou não tem o poder ou a oportunidade ou a vontade de impedir o mal no mundo”.

Reflectindo ainda sobre a Premissa (i) como nos é apresentada, ela estabelece uma afirmação decorrente da natureza da bondade. Afirma que uma pessoa boa se puder impedirá todo o mal, o que parece verdade e aceitável pois as boas pessoas tentam erradicar a pobreza, o sofrimento, as doenças, as guerras, entre outros males. A Premissa (i) é verdadeira, não é? – Não. A premissa (i) está muito próxima da verdade, mas observando-a em profundidade vemos que não é verdadeira.

Porquê?

1º Porque Deus não é um ser qualquer.

2º Porque não é líquido que Deus seja moral, podendo ser amoral ou até imoral, considerações que deixo para outra análise, mas para e neste efeito temos de admitir, pela definição apresentada, que Deus possa ser ora amoral, sem conceito de bem e mal, ou imoral, como o Deus satânico ou o do Antigo Testamento, entre outros.

3º Porque há situações em que é moralmente justificável uma pessoa boa causar ou permitir dor e sofrimento se essa dor e sofrimento for necessário para impedir um mal maior ou para obter um bem maior. Consideremos um cirurgião que tenha de operar sem anestesia para salvar uma vida ou a neutralização de elementos terroristas dispostos a sacrificar vidas, etc.

4º Porque não é possível conhecer o Bem sem o conhecimento e subsequentemente, a existência do Mal.

E se a hipótese da amoralidade do divino desde logo mostra falácia no argumento, esta quarta razão, a da impossibilidade de saber o que é o Bem sem conhecer o que é o Mal, é a pedra cúbica da falácia na argumentação. As coisas, as qualidades, só se percebem por contraposição, a luz só existe por contraponto às trevas, o claro ao escuro, o belo ao feio, o alto ao baixo, o curto ao comprido, o perto ao longe, o muito ao pouco, o grande ao pequeno, o positivo é o oposto de negativo, o frio do calor, o seco do húmido, o amor do ódio, a matéria da antimatéria, a verdade da falsidade, etc. etc. etc.

O mundo é bipolar (em sentido estrito e alargado). Se só houvesse mal, um mal menor seria um bem, se só houvesse frio, menos frio seria calor… O criador criou todas as coisas em pares opostos inclusive quando criou o Homem, “à imagem de Deus os criou; macho e fêmea os criou”[7], isto é, em pares dicotómicos. Nós, as criaturas, não conseguimos compreender a natureza das qualidades sem termo de comparação e, portanto, a única forma que um criador tem de nos presentear o supremo bem é pela contraposição a um supremo mal. Não a um bocadinho de mal, mas sim a um supremo mal, porque um bocadinho de mal só se opõe a um bocadinho de bem e Deus a ser todo bondoso é o supremo bem[8].  

De tudo isto segue-se que a Primeira Premissa não é verdadeira e entra em contradição com o que pretende demonstrar. Há, de resto, um conjunto significativo de teodiceias que explicam a necessidade do mal, mas que aqui não se apresentam uma vez que explicam essa necessidade em termos religiosos e acredito que a razão seja suficiente para explicar o paradoxo do Mal. Contudo, o ateu cinge-se a dogmas que lhe são convenientes e não os analisa em profundidade, adoptando actos de Fé, dos quais estabelece dogmas. O ateu acredita que Deus seria necessariamente bondoso e que ipso facto expurgaria ab initio todo o mal, pelo que, não o fazendo, é porque não há Deus; o ateu acredita que a não validação empírica da existência de Deus seja justificativa quando não consegue empiricamente testar e replicar a criação por outros meios; o ateu considera autogeradas as leis do universo e que elas por si realizaram elas mesmas, por sucessivos acidentes, todas as estruturas naturais, sem conseguir deduzir ou demonstrar nenhuma dessas proposições.

Verificámos pois que todos os argumentos ateístas se desenvolvem em posições de Fé e são dogmáticos, e que, portanto, um Ateu necessita de se socorrer na Fé, como definida no início, para estruturar os seus argumentos e se convencer da inexistência de Deus.

Demonstrei que ao Ateu é necessária a adesão e crença incondicional a hipóteses únicas não testáveis empiricamente a fim de negar a existência de qualquer ser absoluto e criador.

Pelo que o Ateu tendo convicção irracional em crenças não testáveis apresenta sinais claros de convicção por Fé, mas não pode ser ateu, porque um ateu não pode ter Fé, e vive uma contradição, conceptualmente impossível, uma vez que o mesmo sujeito, simultaneamente, não pode ser e não-ser.

Dixit





[1] Richard Dawkins, A Desilusão de Deus, Lisboa: Casa das Letras, 2017 
[2] Crença de que existe pelo menos um Deus, portanto não descarta a existência de outros.
[3] Os deuses são vários, mas apenas se adora um
[4] Como é o caso da crença Cristã, filosoficamente desenvolvida, na Santíssima Trindade do Pai, Filho e Espírito Santo, ou a crença Hindu num espírito cósmico supremo, adorado de muitas formas, designadamente no Trimúrti de Brahma, Shiva e Vishnu.
[5] A crença que existe um Deus criador, mas que não se digna intervir na sua criação.
[6] A crença de que absolutamente tudo e todos compõem um Deus abrangente, e imanente, e que o Universo, o Cosmos, a Natureza e Deus são idênticos.
[7] Génesis 1:27
[8] A teodiceia do Pórtico sobre o mal, assegura que mal e bem não existem em si, nem tampouco como seres, mas apenas como pólos ontológicos pelos quais ajustamos a nossa realidade interior, sendo que temos em nós as noções inatas desses pólos opostos porque a nossa razão é a mesma que o logos divino.

sábado, 19 de outubro de 2019

A Hipótese Silúrica

Um Espanto Conceptual!

Quando me falaram em dinossauros inteligentes, lá pensei ser mais uma daquelas descabeladas teorias, tipo Terra Plana ou a ida à Lua foi uma fraude.

Há que ter um certo cuidado com a rejeição liminar das teorias da conspiração e hipóteses aparentemente absurdas uma vez que estamos tão habituados ao pensamento enlatado que rejeitamos hipóteses e teorias apenas porque não são mainstream. Tróia durante séculos foi uma fábula, as Amazonas eram um mito, a Terra era o centro do mundo e nem era redonda, certo? não eram? Pois deixaram de ser, afinal era verdade. Uma boa dose de cepticismo nunca faz mal a ninguém, mas por isso mesmo, também devemos encarar as verdades enlatadas com uma boa dose de cepticismo.

Terá havido uma civilização tecnológica anterior à nossa?

À nossa qual?

À dos humanos? É uma questão que nos remete para um corpo de assunções, verdades e crenças que tomamos como certas sem nunca termos devidamente reflectido sobre elas. Acreditamos que o actual estado civilizacional é o mais avançado que a Terra já conheceu e consideramos a nossa actual Era Industrial como a epítome do Antropoceno. Este é o enlatado.

Uma pequena pesquisa veio reforçar a minha curiosidade e baixar a guarda céptica. Afinal quem está por detrás desta hipótese não é nenhum mago ou fanático religioso, mas sim um tal Adam Frank, astrofísico da Universidade de Rochester, e um tal Gavin Schmidt, da NASA. Ops! Se estes dois entendem que este assunto merece atenção então também merece reflexão.

A hipótese, lançada pelos dois cientistas, é simples:

1. A fossilização é extremamente rara.
2. A superfície exposta do pré-quaternário é muito reduzida.
3. A ter existido alguma civilização avançada há mais de 4 milhões de anos a probabilidade de encontrar vestígios directos é extremamente reduzida
Logo
4. Não de pode descartar a possibilidade de ter existido uma outra civilização avançada, anterior à nossa.
e
5. A evidência de encontrar uma tal civilização deve ser procurada através de métodos indirectos, tais como anomalias nas composições químicas ou proporções de isótopos em sedimentos.

Então, podemos começar por perguntar que tipo de vestígios ou evidências deixaríamos se a nossa civilização colapsasse e nos extinguíssemos, agora. Hoje.

E postularam-se como vestígios indirectos observáveis, caso a nossa ou outra civilização tivesse adoptado comportamentos vivenciais semelhantes aos nossos, os seguintes:
  • Sinais de aquecimento global, pela libertação de dióxido de carbono e perturbações do ciclo do azoto por acção de fertilizantes.
  • Sinais incomuns de erosão e sedimentação pela prática extensiva da Agricultura.
  • Sinais de nanopartículas de plásticos, poluidores sintéticos e outras coisas como esteróides, que podem ser geoquimicamente detectáveis por milhões, talvez até milhares de milhões de anos.
  • Vestígios de guerra nuclear, que a ter acontecido, deixaria para trás isótopos radioactivos incomuns.
As mais evidentes seriam os resíduos atómicos dos isótopos de carbono, e as nanopartículas de plástico. Os primeiros medem a quantidade de carbono libertado para a atmosfera e depois sedimentado, como aquele que uma civilização industrial libertaria em doses maciças; as nanopartículas de plástico por se sedimentarem no fundo dos oceanos mostrariam também uma camada vestigial de actividade industrial.

Não haveria dificuldade para os cientistas do futuro encontrarem estes vestígios se os procurassem dentro de 1.000 ou mesmo 10.000 anos, porém, como a nossa civilização industrial tem uns meros 100 anos, se os procurassem daqui a alguns milhões de anos, será que os encontrariam?


A escala de tempo é objectivamente o grande desafio. Olhando para o passado, em períodos de milhões de anos, encontramos camadas sedimentares que atestam a ocorrência e libertação de doses massivas de CO2 para a atmosfera, devidas às elevadas temperaturas verificadas em períodos interglaciares, superiores entre 6 a 8ºC às actuais, compatíveis com uma actividade industrial e também com uma forte actividade vulcânica. Nesse tempo, na Antártica floresciam florestas nuns amenos 21ºC de temperatura média, um mundo sem gelo, até à extinção em massa do Cretáceo circa 66 Milhões de anos (pe. O PETM – Paleocen-Eocen Thermal Maximum foi há circa 52 Milhões de anos atrás), em que os registos dos isótopos de carbono mostram picos semelhantes aos actuais do Antropoceno.

A sedimentação de nanopartículas de plástico seria também visível a 10.000 anos de distância, mas adicionando alguns milhões de anos de sedimentação, estaria enterrada, encoberta e esmagada. Indetectável.

Isto per se não sugere a existência de uma civilização industrial, mas permite inferir que a sua hipotética existência possa estar mascarada por outras ocorrências geológicas. Assim, numa primeira análise, a nossa civilização industrial de 100 anos se procurada daqui a 60 Milhões de anos pode não mostrar evidências da sua existência.

Estamos habituados a validar a existência de antigas civilizações pela evidência de estátuas, paredes, ruínas, práticas funerárias, o que é aceitável se medirmos o tempo em escala de milhares de anos. Mas deixa de o ser quando utilizamos escalas de dezenas ou milhões de anos. Ora quando procuramos evidências materiais de civilizações, ie. quando procuramos evidência de estátuas, fábricas, pontes, estradas e edifícios num relógio geológico de milhões de anos a perenidade dos registos não passa do Quaternário, o que é francamente desanimador porque o Quaternário ocorreu há apenas uns meros 2,6 Milhões de anos, quando a idade da Terra ascende a uns provectos 4.000 Milhões de anos. Enquanto tudo isso acontecia, aparecem os hominídeos que à escala terráquea são jovens de 3 Milhões e ecce Homo Sapiens, que tem uns meros 300.000 anos.

Daqui decorre um espanto conceptual. Como podemos inferir do que aconteceu até há 4.000 Milhões de anos quando apenas existimos há 300.000 anos? [1]

Podemos inferir e deduzir que nos últimos 300.000 anos, aparentemente, não houve outra civilização industrial, porque senão teríamos descoberto os tais vestígios de carbono ou nanopartículas de plástico (ou até vestígios materiais) que a atestassem. E sublinho, “aparentemente”, bem como “industrial”, uma vez que a hipotética existência de outras civilizações adiantadas embora não industriais, não está solidamente estabelecida.

E para trás? 300.000 anos em relação à idade da Terra representa uma fracção de 0,00075% da sua idade e acontece que o mais antigo estrato que conseguimos aceder, observar e estudar com algum detalhe está localizado no deserto do Negev (Israel) e tem apenas uns juvenis 1,8 Milhões de anos. Mais para trás e salvo alguns fósseis, estamos a observar poeiras e amálgamas onde é impossível detectar quaisquer vestígios materiais porque tudo foi esmagado, fundido e virado do avesso; portanto lá se foram as estradas, pontes edifícios e outras ruínas, impossíveis ou no mínimo dificílimas de detectar para os períodos mais antigos porque desapareceram enquanto estruturas sólidas coerentes.

Isto significa, preto no branco, que poderá ter existido uma outra civilização não humana algures entre há 2,6 Milhões de anos e a explosão do Câmbrico de há 513 Milhões de anos. E do Câmbrico aos nossos dias ou até há 2,6 milhões de anos decorre tempo suficiente para terem existido 1.666 civilizações, se considerarmos 300.000 anos como o tempo médio de desenvolvimento, zénite e ocaso civilizacional (a hipótese Silúrica).

Uma vez que a única civilização avançada e industrial que conhecemos tem apenas 100 anos e desenvolveu-se com vestígios desde há 7.000 anos, então com uma duração inferior a 100.000 anos poderão ter existido circa 5.000 civilizações, sem que delas tenhamos conhecimento objectivo. E ao escolher 100.000 anos estamos a utilizar uma escala de tempo muito curta na qual em termos biológicos e geológicos é possível e normal, como já vimos, não encontrar qualquer registo.

Mais precisamente significa que os grandes mamíferos fósseis do Paleoceno (60 Milhões de anos) ou os répteis do Jurássico (160 a 200 Milhões de anos), poderão ter alcançado um nível civilizacional e até uma civilização industrial, ou outra, que tenha durado menos de 100.000 anos, sem que dela nos apercebamos, pela não existência de registos fósseis nem tampouco outros materiais ou até registos químicos ou atómicos.

Concluindo e para dar resposta à questão inicial, não podemos com boa-fé e honestidade intelectual postular sermos a civilização mais avançada que a Terra alguma vez conheceu.

P. M. Santos Pereira
19/10/2019







[1] <0,01% do total







segunda-feira, 4 de junho de 2012

Napoleão, o Psicopata



Introdução

Embora Napoleão tivesse sido um homem do seu tempo, imbuído do Zeitgeist revolucionário, vislumbra-se nele o homem patológico que nem sempre procurava soluções racionais e inteligentes, que melhor o beneficiassem a si e aos outros. São evidentes as irracionalidades de algumas das suas estratégias com as quais causou dano e sofrimento a terceiros e ainda assim sofreu prejuízos, aproximando-se daquela personagem que Cipolla descreve como a mais perigosa que existe[1].

Procurei na literatura a defesa da tese do Napoleão patológico, mas nada mais encontrei que o “complexo de Napoleão”[2], o que pouco significa, per se, pelo que adiante irei estabelecer um perfil psicológico e comportamental de Napoleão, no contexto do seu tempo. Procurarei também demonstrar, em termos genéricos, a inexistência de racionalidade no seu percurso, no seu processo de tomada de decisão e tampouco qualquer grande estratégia que não fosse a da sua desmesurada ambição e narcisismo, o que não diminui a dimensão do homem como revolucionário, militar e estratega da arte da guerra, onde refinou a “guerra total” da mobilização geral das populações para lutas apocalípticas (batalhas decisivas) entre heróicos cidadãos livres e miseráveis escravos[3], revolucionou o uso da artilharia, da mobilidade e da concentração de forças nos pontos decisivos e vulnerabilidades dos adversários[4].




 A Irracionalidade em Napoleão

A existir uma “Grande Estratégia Napoleónica” para domínio da Europa algumas circunstâncias deveriam ter-se verificado, nomeadamente:
·         Supremacia militar;
·         Gestão criteriosa de alianças;
·         Consolidação sistemática do realizado;
·         Gestão e economia do esforço de guerra;
·         Afeição das populações conquistadas.

Apenas constatamos a primeira. A gestão coerente de alianças não existiu. A consolidação? Foi uma sobre extensão de territórios a controlar[5]. A gestão dos recursos assentou na pilhagem dos territórios ocupados, transformou a libertação dos povos em conquista e saque[6], o que não viabilizou o apoio dessas populações[7].

Se olharmos para Inglaterra, aí sim encontramos uma Grande Estratégia:
·         Conter a expansão francesa;
·         Manter a supremacia naval;
·         Controlar rotas de comércio e colónias;
·         Poupar recursos, humanos e financeiros, e subsidiar a terceiros o esforço de guerra continental.

A Inglaterra teve fortuna e engenho para evitar em Trafalgar[8] o que aconteceu aos prussianos em Jena, aos austríacos em Austerlitz[9] e aos franceses em Leibniz, e ainda a vantagem de lutar com um opositor que sempre fez uma medíocre gestão de aliados e garantiu o antagonismo de todos os outros estados e povos europeus[10], senão vejamos: A Rússia que nunca morreu de amores pela Inglaterra, sempre se viu constrangida a alinhar com eles. Não alavancou o seu casamento austríaco nem aproveitou a circunstância de Metternich pretender assegurar equilíbrio entre Rússia e França[11]. Antes de Leipzig teria sido possível obter uma paz honrosa[12]. A débacle ibérica foi resultado da política torcionária de querer impor suseranias e libertar quem não queria ser libertado.

Observemos o contra-senso megalómano da campanha do Egipto[13]: I was full of dreams...I saw myself founding a religion, marching into Asia, riding a elephant, a turban in my head, and in my hand the new Koran that I would have composed to suit my needs[14], para aí fundar uma nova colónia, partir à conquista da Índia e uma vez lá atacar os ingleses. Esta gloriosa e absurda aventura numa região com despiciendo valor estratégico como colónia ou base militar[15], custou dezenas de milhares de vidas francesas e ainda mais muçulmanas, teve o seu trágico fim na rendição de Menou aos turcos e ingleses. A campanha não teve racionalidade estratégica e sim, apenas, uma conveniência política – a glória do seu mentor[16] – que sempre perseguiu uma estratégia de poder pessoal, utilizando o interesse nacional da defesa da revolução, ao serviço de uma ambição, tão grande, que não cabia nas fronteiras do sistema de estados europeu[17].

Por várias ocasiões, a Áustria e a Prússia não desejaram a guerra e quando se envolveram nem sempre foi a apregoada cruzada contra-revolucionária[18]. Quando do assassínio do Duque d’Enghien[19] (depuis l’assassinat du duc il y a un martyr de plus dans le ciel, un héros de moins sur la terre)[20], sim, gerou-se a consternação geral das coroas, à qual Napoleão respondeu com a inconveniente proclamação da França Império hereditário, hostilizando os Romanov e Habsburgo[21], imperadores de facto e de jure.

A generalidade das nações debateu-se com as sequelas das derrotas das coligações, enfrentando problemas de solvência e todas, excetuando a Inglaterra, sempre estiveram disponíveis para negociar e manter a paz[22]. No contexto de 1803, Napoleão segue o único rumo capaz de desestabilizar a neutralidade a Leste do Reno – quebra o acordo de Lunéville com o Sacro-Império, intervém na guerra civil suíça, ocupa o Hanôver e a Apúlia. Em 1806 depois de derrotar a Rússia e tomar Berlim, momento em que poderia ter ajustado a Europa à ambição francesa, deita tudo a perder[23], com o Bloqueio Continental, e a nomeação de José rei de Espanha[24]. Em 1807 depois de vencida a Quarta Coligação, Napoleão, no apogeu do seu poder e prestígio, teve uma excelente oportunidade de consolidar o império e a dinastia[25]. Não o fez. Quando da invasão da Rússia e da “guerra da Sexta Coligação” as suas decisões foram tão irracionais que só podem ser explicadas por apostar tudo numa última jogada de suprema glória e mestria...e Napoleão nunca percebeu o que era impossível[26], porque impossível é uma palavra que só se encontra no dicionário dos idiotas[27] (Napoleão dixit), que o levou à incansável perseguição da glória. E uma estratégia patológica para a glória passa por lutar, sempre, até à vitória final.





A Hipótese Patológica

Para avaliarmos esta hipótese evidenciarei os comportamentos estruturantes da sua personalidade confrontados com a aderente sintomatologia patológica[28].

Obsessão
Escreveu a seu irmão: só há uma coisa a fazer neste mundo que é continuar a obter dinheiro e mais dinheiro, poder e mais poder[29].
Lia constantemente[30].
Endereçai ao meu gabinete todos os jornais e tudo o que é publicado no reino[31].
Assistiu a nada menos que 374 peças de teatro, sendo que repetia algumas das apresentações, de forma que foi ao teatro 682 vezes enquanto esteve no poder, mais que uma vez por semana[32].

Violência patológica
Ainda jovem, no recreio era um terror[33]
O seu irmão José, em 1792, descrevia-o como perigoso[34].
Os massacres que ordenou no Próximo Oriente e na Europa[35].
Os seus escritos alternavam crimes e assassínios com banhos de sangue[36].
Procurava um permanente estado de guerra[37].
Tinha uma personalidade destrutiva.
Nas reuniões do Conselho estava de faca em riste e cortava pedaços de madeira das cadeiras.
Lançava tinta para os papeis do despacho e amassava-os antes de os atirar para o chão.
Qualquer peça de porcelana que pegasse destruía.
Se acariciava uma criança fazia-o com tal brutalidade que ela acabava a chorar.
Atirava objectos pela janela.
Ceifava as plantas dos jardins[38].
Tratava as mulheres com brutalidade[39].
Era de uma violência sistemática, por onde passava puxava narizes e torcia orelhas e apertava pescoços.
Irritado, atirava as mesas pelo ar.
Atacava qualquer pessoa ou objecto da sua ira[40].
Era um homem capaz de tudo para satisfazer os seus desejos...e o mais pequeno obstáculo enraivecia-o e era capaz de tudo para o ultrapassar[41].

Hiperactividade
Era por natureza hiperactivo[42].
A sua actividade era notável, parecia estar em toda a parte e em todo o lado ao mesmo tempo[43].
Tinha dificuldade em manter-se sossegado, quando teve de posar para as pinturas oficiais a mulher teve de se sentar junto a ele e segurar-lhe os joelhos porque as pernas lhe tremiam incessantemente[44].
Tinha uma natureza febril. Estava constantemente com novos planos, esquemas e sonhos[45].
Queria sempre resultados imediatos.[46]

Fuga à realidade – Falsidade
Sempre foi um mentiroso patológico[47]. Mentia compulsivamente[48].
Não conhecia a palavra impossível[49].
Era um batoteiro nato, sempre que jogava tinha de ganhar[50].

Narcisismo
O seu egotismo era tão elevado que o seu tópico preferido de conversa era ele mesmo[51].
No exílio: O meu Código Civil e os processos verbais do Conselho de estado viverão eternamente[52].
Não era ligado à família e se os promovia era por vaidade pessoal[53].

Desdobramento de personalidade
Acreditava profundamente nos papeis que representava, a máscara tornava-se no homem[54].

Comportamento anti-social
Nunca teve verdadeiros amigos[55].
Incapaz de comedimento e confiança nos outros[56].

Insensibilidade
Incapaz de inspirar amor pretendia sobretudo inspirar medo[57].
Era de uma insensibilidade atroz, negava ter sentimentos[58].

Constatamos, portanto, um Napoleão com todos os traços de personalidade psicopata[59], descrito no DSM-IV como Transtorno de Personalidade Anti-social[60], com hiperactividade extrema[61] ou, por isso mesmo, no mínimo, maníaco[62], que justificam decisões menos racionais e humanas, que não põem em causa nem o génio nem a coragem.[63]



Conclusão

A tese do “filho da revolução” edificador de uma nova Europa à luz dos ideais de 89, enfim de um Napoleão feroz antagonista do ancien régime que, naquela sociedade ainda brutal, teria de ser temido e vencedor se queria instaurar essa nova ordem europeia, qual “grande estratégia” de largo alcance não é evidente na análise psicológica que se faz de Napoleão. Esta análise conduz-nos outrossim à tese desse mesmo Napoleão feroz e rapace pretender a guerra na Europa, a qualquer preço, não estando aberto nem disposto a qualquer negociação capaz de a evitar.

Como vimos, o que se detecta da análise é a grande falta de racionalidade e um conjunto de erros decisionais mitigados por uma grande capacidade estratégica militar aliada a um conjunto de traços comportamentais que reforçavam as qualidades marciais. Não lhe vislumbro uma “Grande Estratégia” produto consciente de uma reflexão e a que lhe possam atribuir é uma retrospectiva póstuma dos admiradores[64]. Também não lhe atribuo a envergadura de um Bismark, Metternich ou Churchill, apesar de militarmente o equiparar a Aníbal, Alexandre e Alcibíades. Em suma, apenas utilizou a segunda parte[65] de uma das recomendações de Sun Tzu[66] e deveria ter cultivado aquela que diz depender a invencibilidade de nós próprios, isto é, da defesa.

Do cruzamento dos seus traços comportamentais, com a sintomatologia dos transtornos de personalidade e distúrbio mentais, retirados do DSM-IV Source Book[67], resulta uma personalidade psicopata ou maníaca[68]. Esses traços comportamentais que tanto o ajudaram nas suas batalhas e que o tornaram capaz de singrar no quadro revolucionário da época e conduzir a nação a excessos que foram a sua perdição, mas também uma significativa mudança para a Europa.

P. M. Santos Pereira
4 de Junho 2012

Bibliografia
Bell, David, The First Total War, (London: Bloomsbury, 2007)
Berlin, Isaiah, The Hedgehog and the Fox, An essay on Tolstoy’s view of history, (London: Phoenix, 1988)
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Cipolla, Carlo, Allegro ma non Troppo seguido de as leis fundamentais da estupidez humana, (1988), (Lisboa: Texto Gráfica, 1998)
Clausewitz, Carl von, On War, (New Jersey: Princeton University Press, 1984 (1976))
Esdaile, Charles, Napoleon’s Wars, An International History, 1803-1815, (London: Penguin Books, 2007)
Hart, B.H. Liddell, Strategy, (New York: BN Publishing, 2008)
Hayek, Frederico, O Caminho para a Servidão, (Lisboa: Teorema, 1977)
Heuser, Beatrice, The Evolution of Strategy, Thinking War from Antiquity to the Present (New York: Cambridge University Press, 2010)
Kennedy, Paul, Ascensão e Queda das Grandes Potências, Vol.1 (Mem Martins : Publicações Europa-América, 1988)
Mahan, A. T., The Influence of Sea Power upon History 1660-1783 (1890) (New York: Dover, 1987)
McLynn, Frank, Napoleon A Biography, (London: Pimlico, 1998)
Migolla, Alain, Psicanálise, (Lisboa: Cimepsi, 2002)
Murray, Williamson, et all, The Shaping of Grand Strategy, Policy, Diplomacy, and War, editado por Willianson Murray, Richard Hart Sinnreich James Lacey (Cambridge: Cambridge University Press, 2011)
Rodriguez, Ricardo Vélez, Napoleão Imperador dos Franceses Duzentos Anos 1804-2004 (Juiz de Fora: UFJF, 2004)
Sun-Tzu, A Arte da Guerra, (Köln: Evergreen, 1998)
Tolstoy, Leo, War and Peace, Book 1 (Ware: Evergreen, 2007)
Widiger, Thomas et all, DSM-IV Source Book (Arlington: American Psychiatric Association, 1996)





ANEXOS

Sintomatologia Patológica[69]

Transtorno de Personalidade Narcisista
Definição
Sintomas
Distúrbio de personalidade em que o sujeito por necessidade de admiração e aprovação de outras pessoas promove a constituição de uma imagem de si unificada, perfeita, cumprida e inteira.
Grandiosidade
Megalomania
Auto-erotismo
Egoísmo
Convicção de tudo saber


Mania
Definição
Sintomas
Distúrbio mental caracterizado pela alteração do pensamento, com alterações comportamentais dirigidas a ideias fixas e com síndrome de quadro psicótico.
Euforia
Energia física e mental exacerbada
Redução da necessidade de sono
Pensamento acelerado com fuga de ideias
Irritabilidade
Impaciência
Agressividade e violência
Sexualidade exacerbada
Megalomania
Impulsividade


Personalidade Psicopática ou Sociopatia
Definição
Sintomas
Transtorno de Personalidade Antissocial de forte traço narcisista, caracterizado por um desvio de carácter, ausência de sentimentos e perversão em que os sujeitos carecem de superego.

Nasce-se e morre-se psicopata.
Não existe nenhum tratamento eficaz, nem psiquiátrico nem medicamentoso para tratar a psicopatia.

Encanto superficial
Mentiras sistemáticas
Ausência de sentimentos genuínos
Ausência de consciência moral
Frieza
Insensibilidade aos sentimentos alheios
Manipulação
Egocentrismo
Ausência de remorso e culpa e incorrigibilidade
Megalomania
Egoísmo
Se trabalham é só para conseguir dinheiro e poder
Dificuldades de se integrarem em grupo
Impulsividade
Teimosia
Teatralidade
Violência e crueldade.

Hipomania
Definição
Sintomas
Alteração de humor semelhante à mania mas de menor intensidade em que normalmente a necessidade de sono diminui e a libido aumenta
Auto-estima elevada
Megalomania
Necessidade de pouco sono
Compulsão para falar demais
Fuga de ideias
Agitação psicomotora.


Transtorno de Personalidade Histriónica
Definição
Sintomas
Transtorno de personalidade caracterizado por um padrão de emocionalidade excessiva e necessidade de chamar para si as atenções e aprovação.
Comportamento exibicionista
Busca constante de apoio e aprovação
Dramatização excessiva
Orgulho da própria personalidade
Comportamento sedutor inapropriado
Necessidade de ser o centro das atenções
Inconstância dos estados emocionais
Decisões precipitadas


Transtorno Obsessivo-Compulsivo
Definição
Sintomas
É um transtorno de ansiedade caracterizado por comportamentos considerados estranhos para a sociedade ou a própria pessoa
Manias e rituais incontroláveis
Ideias exageradas e irracionais de:
Saúde
Higiene
Organização
Simetria
Perfeição








[1] Cipolla, Carlo, Allegro ma non troppo, p. 85
[2] Postula que os indivíduos de baixa estatura, por complexo de inferioridade, são mais agressivos que os restantes, para assim poderem dominar aqueles mais altos que eles. Está hoje demonstrado que esta asserção não é verdadeira e portanto o complexo de Napoleão não é reconhecido como patologia, embora o seja o “Complexo de Inferioridade”.
[3] Bell, David, The First Total War, pp. 138
[4] Heuser, Beatrice, The Evolution of strategy, pp. 105
[5] Kennedy, Paul, Ascensão e Queda das Grandes Potências, Vol.1 (Mem Martins : Publicações Europa-América, 1988), pp. 169
[6] Ascensão e Queda das Grandes Potências, op. cit pp. 156
[7] Mas em França era idolatrado e plebiscitado. Na votação para o seu consulado perpétuo obteve a favor 3,5 milhões de votos e contra apenas 8.347, in Napoleon’s Wars, op. cit pp. 126.
[8] Por demérito de Villeneuve.
[9] Mahan, A. T., The Influence of Sea Power upon History 1660-1783 (New York: Dover, 1987), pp. 47
[10] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 178
[11] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 504-505
[12] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 513
[13] De se tornar o novo Alexandre.
[14] The First Total War, op. cit pp. 212
[15] Potencial económico e recursos reduzidos, afastada das rotas da Índia que à época ainda navegavam a Rota do Cabo
[16] The First Total War, op. cit pp. 210-211
[17] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 70
[18] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 45
[19] O último dos Condé
[20] Tolstoy,  Leo , War and Peace, pp. 31, o que despoletou um espírito de cruzada das potências, encabeçado por Gustavo IV da Suécia, in Napoleon’s Wars, op. cit pp. 200
[21] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 200
[22] Em 1803 a Áustria exausta e sem recursos (in Napoleon’s Wars, op. cit pp. 178) estava ambivalente quanto a guerrear e a Prússia, empenhada em obter o apoio francês (in Napoleon’s Wars, op. cit pp. 189), declinara a sua participação (in Napoleon’s Wars, op. cit pp. 83), entretanto a Rússia estava pouco inclinada a envolver-se sem que a Áustria se envolvesse primeiro (in Napoleon’s Wars, op. cit pp. 183-184).
[23] Bonaparte, Napoleão, Como fazer a Guerra, (Lisboa: Sílabo, 2003), pp. 12
[24] Foi, por estranho que pareça, a revolta dos povos, ainda a coberto dos reis, que deitou Napoleão a perder (in Bonaparte, Napoleão, Como fazer a Guerra, op. cit pp. 13)
[25] The First Total War, op. cit pp. 241
[26] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 445
[27] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 461
[28] Ver a sintomatologia em anexo
[29] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 33
[30] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 17
[31] Bonaparte, Napoleão, Como fazer a Guerra, op. cit pp. 55
[32] [32] Rodriguez, Ricardo, Napoleão Imperador dos Franceses Duzentos Anos 1804-2004 (Juiz de Fora: UFJF, 2004), pp. 25
[33] Napoleon A Biography, op. cit pp. 18
[34] I have always detected in Napoleon an ambition that is not altogether selfish,…he is a dangerous man…he seems inclined to be a tyrant (in The First Total War, op. cit pp.190)
[35] Em Al-Azhar mandou matar 3.000 egípcios desarmados. No Cairo, quando de uma revolta, mandou cortar a cabeça a todos os prisioneiros capturados com armas e atirar os corpos ao Nilo. Em Jaffa depois da rendição de 4.000 otomanos mandou fuzilar todos os oficiais. Sempre que as populações resistiam respondia com compulsiva violência. Pavia e Lugo mandou-as destruir totalmente depois de autorizar o saque da tropa. Em Stanz, na Suíça, mandou queimar todas as casas (600) nas quais morreram 1.200 homens, mulheres e crianças. No Haiti autorizou a chacina de dezenas de milhares de escravos negros (in The First Total War, op. cit pp. 213-214)
[36] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 22
[37] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 116
[38] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 128-129
[39] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 128-129
[40] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 130
[41] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 446
[42] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 128
[43] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 33
[44] The First Total War, op. cit pp.201
[45] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 130
[46] The First Total War, op. cit pp.189
[47] Napoleon A Biography, op. cit pp. 18
[48] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 128
[49] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 131
[50] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 128
[51] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 129
[52] Rodriguez, Ricardo, Napoleão Imperador dos Franceses, op. cit pp. 20
[53] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 130
[54] The First Total War, op. cit pp.190
[55] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 130
[56] Napoleon A Biography, op. cit pp. 231
[57] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 131
[58] Napoleon’s Wars, op. cit pp. 128-129
[59] O psicopata caracteriza-se por fortes traços narcisistas, desvio de carácter, ausência de sentimentos e perversão com carência de superego e sobretudo total ausência de empatia, isto é, o psicopata é incapaz de perceber os sentimentos das pessoas à sua volta
[60] A Personalidade Psicopática ou Sociopatia segundo o CID 10 (Classificação Internacional de Doenças da OMS) não é uma doença mental uma vez qu não apresenta sintoma para tal.
[61] Ou seja, traços de distúrbio de personalidade obsessiva compulsiva
[62] A mania é um triunfo do Ego sobre o objecto das pulsões e de eros sobre tanatos. A mania constitui a utilização do sentimento de omnipotência para controlar e dominar os objectos ou os outros (in Migolla, Alain, Psicanálise, (Lisboa: Cimepsi, 2002), pp. 488
[63] Confere com as características comportamentais – ver Anexo
[64] Sinnreich, Richard, “Patterns of Grand Strategy”, in Murray, Williamson, et all, The Shaping of Grand Strategy, Policy, Diplomacy, and War, editado por Willianson Murray, Richard Hart Sinnreich James Lacey (Cambridge: Cambridge University Press, 2011), pp. 254
[65] O aforismo completo será: “A invencibilidade depende de nós próprios, a vulnerabilidade do inimigo depende. A invencibilidade reside na defesa, a possibilidade de vitória no ataque”.
[66] Sun-Tzu, A Arte da Guerra, (Köln: Evergreen, 1998), pp. 127-128
[67] Widiger, Thomas et all, DSM-IV Source Book (Arlington: American Psychiatric Association, 1996)
[68] Ver sintomatologia em anexo.                                                                 
[69] Widiger, Thomas et all, DSM-IV Source Book (Arlington: American Psychiatric Association, 1996)