Porque é necessário ter Fé para ser Ateu?
É uma interrogação que
pretende demonstrar essa mesma proposição: é necessário ter Fé para ser Ateu.
Ora sendo uma proposição sintética depende de definições e outras
demonstrações para se apurar da sua validade conceptual.
A Fé define-se segundo a Wikipédia
como a “adesão de forma incondicional a uma hipótese que a
pessoa passa a considerar como sendo uma verdade sem qualquer tipo de
prova ou critério objectivo de verificação, pela absoluta confiança que
se deposita em determinada ideia ou fonte de transmissão”; ou ainda segundo o
dicionário da Porto Editora, “a crença absoluta na existência ou veracidade de certo facto, convicção íntima
e absoluta em algo ou em alguém; e ainda adesão aos dogmas
de uma doutrina religiosa considerada revelada. Definindo-se dogma como
uma proposição proclamada e incontestável imposta como irrefutável sem crítica
nem exame admissível.
Ateu, segundo a
Wikipédia define-se como “o indivíduo com ausência de crença na existência de
quaisquer divindades pela falta de evidências empíricas que provem
sua existência, e ainda segundo o dicionário da Porto Editora, “é um descrente
que nega a existência de qualquer divindade”. Há várias categorias de ateus de
acordo com a profundidade da convicção: Ateísmo Forte e Fraco, Positivo e
Negativo, Prático ou Pragmático. Pelo que adopto a divisão preconizada pelo
ateísta Richard Dawkins:
Deísmo, Agnosticismo e Ateísmo, que engloba dentro do Ateísmo todos os tipos de
ateísmo e no Deísmo todos os teísmos.
Deus, por
sua vez, define-se como um ser absolutamente perfeito, supremo criador de todo
o Universo, que é omnisciente (sabe tudo), omnipresente (está em todo o lado),
incorpóreo, dotado de asseidade (existe por si mesmo), eterno, inefável
(inexprimível), uno e perfeito. Como é necessário estabelecer uma definição
operatória de Deus que seja um máximo denominador comum, retirei omnibenevolência
(bondade), dado tratar-se de uma característica suplementar do Deus cristão,
entre outros, mas não universal. Com efeito um Deus satânico entra na categoria
de Deus/Deuses, assim como Shiva o destruidor, e quanto ao Jehovah do Antigo
Testamento, ao ordenar que o pai sacrifique o filho Isaac, ao condicionar
maliciosamente a vida de Jacob, ao destruir cidades e dizimar populações, podemos
inferir, ser tudo menos um Deus bondoso. Por outro lado, dentro da
classificação das crenças em Deus(es) temos várias categorias: Politeísmo, Teísmo,
Henoteísmo,
Monoteísmo trinitário,
Deísmo
e ainda o Panteísmo.
Doravante sempre que referir Deus reporto-me a qualquer crença em Um ou uma
pluralidade de Deuses.
Pode-se, agora, com a precisa
definição dos termos e conceitos reformular a proposição inicial, para o que
substituímos o predicado e o sujeito pelas suas definições, gerando a mesma
proposição de uma forma analítica. Assim:
Porque é necessária a
adesão e crença incondicional a uma única hipótese não testável empiricamente
para se negar a existência de qualquer ser absoluto e criador?
A ser demonstrada esta
proposição, o ateu tem uma convicção irracional numa crença e, ou não é ateu,
porque um ateu não pode ter fé, ou tem fé e não pode ser ateu, e em última
instância vive uma contradição, conceptualmente impossível, uma vez que o mesmo
sujeito simultaneamente não pode ser e não-ser.
Há três argumentos principais
dos Ateus, quanto à inexistência de Deus.
O primeiro argumento ateísta não
aceita a existência de Deus pela falta de evidências empíricas e os
Ateus têm absoluta confiança nessa ideia sem subsequente exame ou critério
objectivo de verificação.
1. Tudo o
que existe pode ser verificado empiricamente (experimentalmente ou pelos
sentidos).
2. Não se
consegue verificar empiricamente a existência de Deus.
Logo
3. Deus
não existe.
Por outras palavras, não
acreditam em Deus porque não há provas, e têm a certeza incondicional e
absoluta confiança nessa verdade, como se a falta de prova na existência fosse
a prova da inexistência; estabelecendo um dogma.
O segundo argumento do Ateísmo baseia-se
no princípio da causalidade universal. O universo é causal, a realidade não é
mais que matéria ou energia, a qual através de uma longa série de coincidências
(de baixo grau de probabilidade), evoluiu per se gerando estruturas de
larga escala, incluindo a vida e a consciência, apenas um outro passo da deriva
evolucionária cega e natural, pelo que Nós somos estruturas orgânicas conscientes
resultantes das forças que nos rodeiam.
Podemos aceitar esta crença
como válida?
A causalidade universal está
devidamente testada, é verdadeira, todo o efeito precede de uma causa e é por
sua vez causa de outro efeito numa cadeia ininterrupta de relações causa-efeito, onde qualquer manifestação sem causa é um milagre.
O Universo é composto de energia também é uma verdade, a evolução está
demonstrada, seja biológica, geológica ou cósmica, somos estruturas orgânicas
ninguém põe em causa e somos tremendamente condicionados pelas forças do meio envolvente
também.
Apenas três coisas não estão
provadas na proposição da crença ateia: uma que a deriva evolucionária seja
cega, a segunda que as leis que regem o cosmos e a evolução sejam autogeradas e
a terceira, que por muito que se esforcem em replicar as condições de criação
de vida, ou outras, não conseguem experimentalmente provar que um relojoeiro
cego seja capaz de criar com equilíbrio e estética, as estruturas da natureza tais
como as conhecemos. Isto é, não está estabelecido nem a razão consegue deduzir
que as leis da natureza sejam fruto da evolução, sejam cegas e autogeradas, nem
conseguem replicar experimentalmente a criação. Há, portanto, na crença ateísta,
um dogma não provado empiricamente já que, por exemplo, as leis da natureza e
da evolução, ditas as regras do jogo, tanto podem ser autogeradas (como Deus
dotadas de asseidade), ou programadas e regidas por uma entidade criadora. Não
havendo qualquer prova da sua autogeração, temos de a considerar probabilisticamente
semelhante à hipótese da programação. Ora sustentar uma crença sem a conseguir
validar empiricamente e transformá-la num Dogma, é precisamente uma questão de
Fé.
O terceiro dos grandes
argumentos ateístas é o problema do Mal, que se desenvolve no
argumento seguinte:
1. Se
existisse Deus, não haveria mal no mundo.
2. Há mal
no mundo (por observação).
Logo
3. Não
existe Deus.
Este argumento é aparentemente
válido, se considerarmos verdadeiras as suas premissas.
Vejamos se decomposto e
tornado analítico, nos apresenta a mesma conclusão e para esse efeito
desenvolve-se um argumento de apoio à primeira premissa:
i) Um ser moralmente bom impede todo o mal que
tenha o poder e oportunidade de impedir (da definição de bondade);
ii) Um ser omnipotente tem o poder de impedir todo
o mal (da definição de omnipotência);
iii) Um ser omnisciente, omnipresente e eterno, que
é o criador de tudo, tem a capacidade de impedir todo o mal;
iv) Deus é por definição omnipotente, omnisciente,
omnipresente, eterno e o criador de todas as coisas e seres (do conceito de
Deus);
Logo,
v) A existir Deus não haveria mal no mundo.
A Premissa ii) provém da
definição comum de omnipotência e leva à dedução que o mal poderia ter sido
evitado na criação do mundo e a todo o tempo.
As Premissas iii) e iv)
completam a Premissa ii), pois um ser com essas características teria a
oportunidade desde a criação e a todo o tempo de excluir o mal, pois um ser
eterno existe em todas as épocas, está em todo o lado e sabe tudo o que queira
saber. Não lhe falta o motivo, nem o conhecimento, nem a oportunidade.
Resta a Premissa (i)!
Em primeiro lugar ela não se
identifica com a dedução do argumento que deveria ser: “Donde, não tem a oportunidade
de impedir todo o mal”; situação que se afigura paradoxal no âmbito de todos
esses poderes que Lhe são atribuídos, mas que poderá ser menos paradoxal se
acrescentássemos à premissa (i) o critério da vontade, reescrevendo-a “Um ser
moralmente bom impede todo o mal que tenha a vontade e/ou o poder e e/ou
a oportunidade de impedir”, configurando uma dedução (v) Segue-se que, ou
Deus não existe, ou não existe com os poderes comumente atribuídos, ou não tem
o poder ou a oportunidade ou a vontade de impedir o mal no mundo”.
Reflectindo ainda sobre a
Premissa (i) como nos é apresentada, ela estabelece uma afirmação decorrente da
natureza da bondade. Afirma que uma pessoa boa se puder impedirá todo o mal, o
que parece verdade e aceitável pois as boas pessoas tentam erradicar a pobreza,
o sofrimento, as doenças, as guerras, entre outros males. A Premissa (i) é
verdadeira, não é? – Não. A premissa (i) está muito próxima da verdade, mas
observando-a em profundidade vemos que não é verdadeira.
Porquê?
1º
Porque Deus não é um ser qualquer.
2º
Porque não é líquido que Deus seja moral, podendo ser amoral ou até imoral,
considerações que deixo para outra análise, mas para e neste efeito temos de
admitir, pela definição apresentada, que Deus possa ser ora amoral, sem conceito
de bem e mal, ou imoral, como o Deus satânico ou o do Antigo Testamento, entre
outros.
3º
Porque há situações em que é moralmente justificável uma pessoa boa causar ou
permitir dor e sofrimento se essa dor e sofrimento for necessário para impedir
um mal maior ou para obter um bem maior. Consideremos um cirurgião que tenha de
operar sem anestesia para salvar uma vida ou a neutralização de elementos
terroristas dispostos a sacrificar vidas, etc.
4º
Porque não é possível conhecer o Bem sem o conhecimento e subsequentemente, a
existência do Mal.
E se a hipótese da amoralidade
do divino desde logo mostra falácia no argumento, esta quarta razão, a da
impossibilidade de saber o que é o Bem sem conhecer o que é o Mal, é a pedra
cúbica da falácia na argumentação. As coisas, as qualidades, só se percebem por
contraposição, a luz só existe por contraponto às trevas, o claro ao escuro, o
belo ao feio, o alto ao baixo, o curto ao comprido, o perto ao longe, o muito ao
pouco, o grande ao pequeno, o positivo é o oposto de negativo, o frio do calor,
o seco do húmido, o amor do ódio, a matéria da antimatéria, a verdade da
falsidade, etc. etc. etc.
O mundo é bipolar (em sentido
estrito e alargado). Se só houvesse mal, um mal menor seria um bem, se só
houvesse frio, menos frio seria calor… O criador criou todas as coisas em pares
opostos inclusive quando criou o Homem, “à imagem de Deus os criou; macho e
fêmea os criou”,
isto é, em pares dicotómicos. Nós, as criaturas, não conseguimos compreender a
natureza das qualidades sem termo de comparação e, portanto, a única forma
que um criador tem de nos presentear o supremo bem é pela contraposição a um
supremo mal. Não a um bocadinho de mal, mas sim a um supremo mal, porque um
bocadinho de mal só se opõe a um bocadinho de bem e Deus a ser todo bondoso é o
supremo bem.
De tudo isto segue-se que a
Primeira Premissa não é verdadeira e entra em contradição com o que pretende
demonstrar. Há, de resto, um conjunto significativo de teodiceias que explicam
a necessidade do mal, mas que aqui não se apresentam uma vez que explicam essa
necessidade em termos religiosos e acredito que a razão seja suficiente para
explicar o paradoxo do Mal. Contudo, o ateu cinge-se a dogmas que lhe são convenientes e
não os analisa em profundidade, adoptando actos de Fé, dos quais estabelece
dogmas. O ateu acredita que Deus seria necessariamente bondoso e que ipso
facto expurgaria ab initio todo o mal, pelo que, não o fazendo, é
porque não há Deus; o ateu acredita que a não validação empírica da existência
de Deus seja justificativa quando não consegue empiricamente testar e replicar a
criação por outros meios; o ateu considera autogeradas as leis do universo e que elas por si realizaram elas mesmas, por sucessivos acidentes, todas as estruturas naturais, sem
conseguir deduzir ou demonstrar nenhuma dessas proposições.
Verificámos pois que todos os
argumentos ateístas se desenvolvem em posições de Fé e são dogmáticos, e que,
portanto, um Ateu necessita de se socorrer na Fé, como definida no início, para
estruturar os seus argumentos e se convencer da inexistência de Deus.
Demonstrei que ao Ateu é
necessária a adesão e crença incondicional a hipóteses únicas não testáveis
empiricamente a fim de negar a existência de qualquer ser absoluto e criador.
Pelo que o Ateu tendo
convicção irracional em crenças não testáveis apresenta sinais claros de
convicção por Fé, mas não pode ser ateu, porque um ateu não pode ter Fé, e vive
uma contradição, conceptualmente impossível, uma vez que o mesmo sujeito,
simultaneamente, não pode ser e não-ser.
Dixit