quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ateus. Homens de Fé!


Porque é necessário ter Fé para ser Ateu?

É uma interrogação que pretende demonstrar essa mesma proposição: é necessário ter Fé para ser Ateu. Ora sendo uma proposição sintética depende de definições e outras demonstrações para se apurar da sua validade conceptual.

A define-se segundo a Wikipédia como a “adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade sem qualquer tipo de prova ou critério objectivo de verificação, pela absoluta confiança que se deposita em determinada ideia ou fonte de transmissão”; ou ainda segundo o dicionário da Porto Editora, “a crença absoluta na existência ou veracidade de certo facto, convicção íntima e absoluta em algo ou em alguém; e ainda adesão aos dogmas de uma doutrina religiosa considerada revelada. Definindo-se dogma como uma proposição proclamada e incontestável imposta como irrefutável sem crítica nem exame admissível.

Ateu, segundo a Wikipédia define-se como “o indivíduo com ausência de crença na existência de quaisquer divindades pela falta de evidências empíricas que provem sua existência, e ainda segundo o dicionário da Porto Editora, “é um descrente que nega a existência de qualquer divindade”. Há várias categorias de ateus de acordo com a profundidade da convicção: Ateísmo Forte e Fraco, Positivo e Negativo, Prático ou Pragmático. Pelo que adopto a divisão preconizada pelo ateísta Richard Dawkins[1]: Deísmo, Agnosticismo e Ateísmo, que engloba dentro do Ateísmo todos os tipos de ateísmo e no Deísmo todos os teísmos.

Deus, por sua vez, define-se como um ser absolutamente perfeito, supremo criador de todo o Universo, que é omnisciente (sabe tudo), omnipresente (está em todo o lado), incorpóreo, dotado de asseidade (existe por si mesmo), eterno, inefável (inexprimível), uno e perfeito. Como é necessário estabelecer uma definição operatória de Deus que seja um máximo denominador comum, retirei omnibenevolência (bondade), dado tratar-se de uma característica suplementar do Deus cristão, entre outros, mas não universal. Com efeito um Deus satânico entra na categoria de Deus/Deuses, assim como Shiva o destruidor, e quanto ao Jehovah do Antigo Testamento, ao ordenar que o pai sacrifique o filho Isaac, ao condicionar maliciosamente a vida de Jacob, ao destruir cidades e dizimar populações, podemos inferir, ser tudo menos um Deus bondoso. Por outro lado, dentro da classificação das crenças em Deus(es) temos várias categorias: Politeísmo, Teísmo[2], Henoteísmo[3], Monoteísmo trinitário[4], Deísmo[5] e ainda o Panteísmo[6]. Doravante sempre que referir Deus reporto-me a qualquer crença em Um ou uma pluralidade de Deuses.

Pode-se, agora, com a precisa definição dos termos e conceitos reformular a proposição inicial, para o que substituímos o predicado e o sujeito pelas suas definições, gerando a mesma proposição de uma forma analítica. Assim:

Porque é necessária a adesão e crença incondicional a uma única hipótese não testável empiricamente para se negar a existência de qualquer ser absoluto e criador?

A ser demonstrada esta proposição, o ateu tem uma convicção irracional numa crença e, ou não é ateu, porque um ateu não pode ter fé, ou tem fé e não pode ser ateu, e em última instância vive uma contradição, conceptualmente impossível, uma vez que o mesmo sujeito simultaneamente não pode ser e não-ser.

Há três argumentos principais dos Ateus, quanto à inexistência de Deus.
O primeiro argumento ateísta não aceita a existência de Deus pela falta de evidências empíricas e os Ateus têm absoluta confiança nessa ideia sem subsequente exame ou critério objectivo de verificação.

1. Tudo o que existe pode ser verificado empiricamente (experimentalmente ou pelos sentidos).
2.     Não se consegue verificar empiricamente a existência de Deus.
Logo
3.     Deus não existe.

Por outras palavras, não acreditam em Deus porque não há provas, e têm a certeza incondicional e absoluta confiança nessa verdade, como se a falta de prova na existência fosse a prova da inexistência; estabelecendo um dogma.

O segundo argumento do Ateísmo baseia-se no princípio da causalidade universal. O universo é causal, a realidade não é mais que matéria ou energia, a qual através de uma longa série de coincidências (de baixo grau de probabilidade), evoluiu per se gerando estruturas de larga escala, incluindo a vida e a consciência, apenas um outro passo da deriva evolucionária cega e natural, pelo que Nós somos estruturas orgânicas conscientes resultantes das forças que nos rodeiam.

Podemos aceitar esta crença como válida?

A causalidade universal está devidamente testada, é verdadeira, todo o efeito precede de uma causa e é por sua vez causa de outro efeito numa cadeia ininterrupta de relações causa-efeito, onde qualquer manifestação sem causa é um milagre. O Universo é composto de energia também é uma verdade, a evolução está demonstrada, seja biológica, geológica ou cósmica, somos estruturas orgânicas ninguém põe em causa e somos tremendamente condicionados pelas forças do meio envolvente também.

Apenas três coisas não estão provadas na proposição da crença ateia: uma que a deriva evolucionária seja cega, a segunda que as leis que regem o cosmos e a evolução sejam autogeradas e a terceira, que por muito que se esforcem em replicar as condições de criação de vida, ou outras, não conseguem experimentalmente provar que um relojoeiro cego seja capaz de criar com equilíbrio e estética, as estruturas da natureza tais como as conhecemos. Isto é, não está estabelecido nem a razão consegue deduzir que as leis da natureza sejam fruto da evolução, sejam cegas e autogeradas, nem conseguem replicar experimentalmente a criação. Há, portanto, na crença ateísta, um dogma não provado empiricamente já que, por exemplo, as leis da natureza e da evolução, ditas as regras do jogo, tanto podem ser autogeradas (como Deus dotadas de asseidade), ou programadas e regidas por uma entidade criadora. Não havendo qualquer prova da sua autogeração, temos de a considerar probabilisticamente semelhante à hipótese da programação. Ora sustentar uma crença sem a conseguir validar empiricamente e transformá-la num Dogma, é precisamente uma questão de Fé.

O terceiro dos grandes argumentos ateístas é o problema do Mal, que se desenvolve no argumento seguinte:

1.     Se existisse Deus, não haveria mal no mundo.
2.     Há mal no mundo (por observação).
Logo
3.     Não existe Deus.

Este argumento é aparentemente válido, se considerarmos verdadeiras as suas premissas. 

Vejamos se decomposto e tornado analítico, nos apresenta a mesma conclusão e para esse efeito desenvolve-se um argumento de apoio à primeira premissa:

i)                Um ser moralmente bom impede todo o mal que tenha o poder e oportunidade de impedir (da definição de bondade);

ii)     Um ser omnipotente tem o poder de impedir todo o mal (da definição de omnipotência);

iii)      Um ser omnisciente, omnipresente e eterno, que é o criador de tudo, tem a capacidade de impedir todo o mal;

iv)        Deus é por definição omnipotente, omnisciente, omnipresente, eterno e o criador de todas as coisas e seres (do conceito de Deus);

Logo,

v)              A existir Deus não haveria mal no mundo.

A Premissa ii) provém da definição comum de omnipotência e leva à dedução que o mal poderia ter sido evitado na criação do mundo e a todo o tempo.

As Premissas iii) e iv) completam a Premissa ii), pois um ser com essas características teria a oportunidade desde a criação e a todo o tempo de excluir o mal, pois um ser eterno existe em todas as épocas, está em todo o lado e sabe tudo o que queira saber. Não lhe falta o motivo, nem o conhecimento, nem a oportunidade.

Resta a Premissa (i)!

Em primeiro lugar ela não se identifica com a dedução do argumento que deveria ser: “Donde, não tem a oportunidade de impedir todo o mal”; situação que se afigura paradoxal no âmbito de todos esses poderes que Lhe são atribuídos, mas que poderá ser menos paradoxal se acrescentássemos à premissa (i) o critério da vontade, reescrevendo-a “Um ser moralmente bom impede todo o mal que tenha a vontade e/ou o poder e e/ou a oportunidade de impedir”, configurando uma dedução (v) Segue-se que, ou Deus não existe, ou não existe com os poderes comumente atribuídos, ou não tem o poder ou a oportunidade ou a vontade de impedir o mal no mundo”.

Reflectindo ainda sobre a Premissa (i) como nos é apresentada, ela estabelece uma afirmação decorrente da natureza da bondade. Afirma que uma pessoa boa se puder impedirá todo o mal, o que parece verdade e aceitável pois as boas pessoas tentam erradicar a pobreza, o sofrimento, as doenças, as guerras, entre outros males. A Premissa (i) é verdadeira, não é? – Não. A premissa (i) está muito próxima da verdade, mas observando-a em profundidade vemos que não é verdadeira.

Porquê?

1º Porque Deus não é um ser qualquer.

2º Porque não é líquido que Deus seja moral, podendo ser amoral ou até imoral, considerações que deixo para outra análise, mas para e neste efeito temos de admitir, pela definição apresentada, que Deus possa ser ora amoral, sem conceito de bem e mal, ou imoral, como o Deus satânico ou o do Antigo Testamento, entre outros.

3º Porque há situações em que é moralmente justificável uma pessoa boa causar ou permitir dor e sofrimento se essa dor e sofrimento for necessário para impedir um mal maior ou para obter um bem maior. Consideremos um cirurgião que tenha de operar sem anestesia para salvar uma vida ou a neutralização de elementos terroristas dispostos a sacrificar vidas, etc.

4º Porque não é possível conhecer o Bem sem o conhecimento e subsequentemente, a existência do Mal.

E se a hipótese da amoralidade do divino desde logo mostra falácia no argumento, esta quarta razão, a da impossibilidade de saber o que é o Bem sem conhecer o que é o Mal, é a pedra cúbica da falácia na argumentação. As coisas, as qualidades, só se percebem por contraposição, a luz só existe por contraponto às trevas, o claro ao escuro, o belo ao feio, o alto ao baixo, o curto ao comprido, o perto ao longe, o muito ao pouco, o grande ao pequeno, o positivo é o oposto de negativo, o frio do calor, o seco do húmido, o amor do ódio, a matéria da antimatéria, a verdade da falsidade, etc. etc. etc.

O mundo é bipolar (em sentido estrito e alargado). Se só houvesse mal, um mal menor seria um bem, se só houvesse frio, menos frio seria calor… O criador criou todas as coisas em pares opostos inclusive quando criou o Homem, “à imagem de Deus os criou; macho e fêmea os criou”[7], isto é, em pares dicotómicos. Nós, as criaturas, não conseguimos compreender a natureza das qualidades sem termo de comparação e, portanto, a única forma que um criador tem de nos presentear o supremo bem é pela contraposição a um supremo mal. Não a um bocadinho de mal, mas sim a um supremo mal, porque um bocadinho de mal só se opõe a um bocadinho de bem e Deus a ser todo bondoso é o supremo bem[8].  

De tudo isto segue-se que a Primeira Premissa não é verdadeira e entra em contradição com o que pretende demonstrar. Há, de resto, um conjunto significativo de teodiceias que explicam a necessidade do mal, mas que aqui não se apresentam uma vez que explicam essa necessidade em termos religiosos e acredito que a razão seja suficiente para explicar o paradoxo do Mal. Contudo, o ateu cinge-se a dogmas que lhe são convenientes e não os analisa em profundidade, adoptando actos de Fé, dos quais estabelece dogmas. O ateu acredita que Deus seria necessariamente bondoso e que ipso facto expurgaria ab initio todo o mal, pelo que, não o fazendo, é porque não há Deus; o ateu acredita que a não validação empírica da existência de Deus seja justificativa quando não consegue empiricamente testar e replicar a criação por outros meios; o ateu considera autogeradas as leis do universo e que elas por si realizaram elas mesmas, por sucessivos acidentes, todas as estruturas naturais, sem conseguir deduzir ou demonstrar nenhuma dessas proposições.

Verificámos pois que todos os argumentos ateístas se desenvolvem em posições de Fé e são dogmáticos, e que, portanto, um Ateu necessita de se socorrer na Fé, como definida no início, para estruturar os seus argumentos e se convencer da inexistência de Deus.

Demonstrei que ao Ateu é necessária a adesão e crença incondicional a hipóteses únicas não testáveis empiricamente a fim de negar a existência de qualquer ser absoluto e criador.

Pelo que o Ateu tendo convicção irracional em crenças não testáveis apresenta sinais claros de convicção por Fé, mas não pode ser ateu, porque um ateu não pode ter Fé, e vive uma contradição, conceptualmente impossível, uma vez que o mesmo sujeito, simultaneamente, não pode ser e não-ser.

Dixit





[1] Richard Dawkins, A Desilusão de Deus, Lisboa: Casa das Letras, 2017 
[2] Crença de que existe pelo menos um Deus, portanto não descarta a existência de outros.
[3] Os deuses são vários, mas apenas se adora um
[4] Como é o caso da crença Cristã, filosoficamente desenvolvida, na Santíssima Trindade do Pai, Filho e Espírito Santo, ou a crença Hindu num espírito cósmico supremo, adorado de muitas formas, designadamente no Trimúrti de Brahma, Shiva e Vishnu.
[5] A crença que existe um Deus criador, mas que não se digna intervir na sua criação.
[6] A crença de que absolutamente tudo e todos compõem um Deus abrangente, e imanente, e que o Universo, o Cosmos, a Natureza e Deus são idênticos.
[7] Génesis 1:27
[8] A teodiceia do Pórtico sobre o mal, assegura que mal e bem não existem em si, nem tampouco como seres, mas apenas como pólos ontológicos pelos quais ajustamos a nossa realidade interior, sendo que temos em nós as noções inatas desses pólos opostos porque a nossa razão é a mesma que o logos divino.