Um Espanto Conceptual!
Quando me falaram em dinossauros inteligentes, lá pensei ser mais uma daquelas descabeladas teorias, tipo Terra Plana ou a ida
à Lua foi uma fraude.
Há que ter um certo cuidado
com a rejeição liminar das teorias da conspiração e hipóteses aparentemente
absurdas uma vez que estamos tão habituados ao pensamento enlatado que rejeitamos
hipóteses e teorias apenas porque não são mainstream. Tróia durante
séculos foi uma fábula, as Amazonas eram um mito, a Terra era o centro do mundo
e nem era redonda, certo? não eram? Pois deixaram de ser, afinal era verdade.
Uma boa dose de cepticismo nunca faz mal a ninguém, mas por isso mesmo, também devemos
encarar as verdades enlatadas com uma boa dose de cepticismo.
Terá havido uma civilização tecnológica
anterior à nossa?
À nossa qual?
À dos
humanos? É uma questão que nos remete para um corpo de assunções, verdades e
crenças que tomamos como certas sem nunca termos devidamente reflectido sobre
elas. Acreditamos que o actual estado civilizacional é o mais avançado que a
Terra já conheceu e consideramos a nossa actual Era Industrial como a epítome
do Antropoceno. Este é o enlatado.
Uma pequena pesquisa veio
reforçar a minha curiosidade e baixar a guarda céptica. Afinal quem está por detrás
desta hipótese não é nenhum mago ou fanático religioso, mas sim um tal Adam
Frank, astrofísico da Universidade de Rochester, e um tal Gavin
Schmidt, da NASA. Ops! Se estes dois entendem que este assunto merece atenção
então também merece reflexão.
A hipótese, lançada pelos dois
cientistas, é simples:
1. A
fossilização é extremamente rara.
2. A superfície
exposta do pré-quaternário é muito reduzida.
3. A ter
existido alguma civilização avançada há mais de 4 milhões de anos a
probabilidade de encontrar vestígios directos é extremamente reduzida
Logo
4. Não de
pode descartar a possibilidade de ter existido uma outra civilização avançada,
anterior à nossa.
e
5. A
evidência de encontrar uma tal civilização deve ser procurada através de métodos
indirectos, tais como anomalias nas composições químicas ou proporções de
isótopos em sedimentos.
Então, podemos começar por perguntar que tipo de vestígios ou evidências deixaríamos
se a nossa civilização colapsasse e nos extinguíssemos, agora. Hoje.
E
postularam-se como vestígios indirectos observáveis, caso a nossa ou outra civilização tivesse
adoptado comportamentos vivenciais semelhantes aos nossos, os seguintes:
- Sinais de aquecimento
global, pela libertação de dióxido de carbono e perturbações do ciclo do azoto
por acção de fertilizantes.
- Sinais incomuns
de erosão e sedimentação pela prática extensiva da Agricultura.
- Sinais de nanopartículas
de plásticos, poluidores sintéticos e outras coisas como esteróides, que
podem ser geoquimicamente detectáveis por milhões, talvez até milhares de
milhões de anos.
- Vestígios de guerra
nuclear, que a ter acontecido, deixaria para trás isótopos radioactivos
incomuns.
As mais evidentes seriam os resíduos
atómicos dos isótopos de carbono, e as nanopartículas de plástico. Os primeiros
medem a quantidade de carbono libertado para a atmosfera e depois sedimentado,
como aquele que uma civilização industrial libertaria em doses maciças; as
nanopartículas de plástico por se sedimentarem no fundo dos oceanos mostrariam
também uma camada vestigial de actividade industrial.
Não haveria dificuldade para
os cientistas do futuro encontrarem estes vestígios se os procurassem dentro de
1.000 ou mesmo 10.000 anos, porém, como a nossa civilização industrial tem uns
meros 100 anos, se os procurassem daqui a alguns milhões de anos, será que os
encontrariam?
A escala de tempo é
objectivamente o grande desafio. Olhando para o passado, em períodos de milhões
de anos, encontramos camadas sedimentares que atestam a ocorrência e libertação
de doses massivas de CO2 para a atmosfera, devidas às elevadas temperaturas verificadas
em períodos interglaciares, superiores entre 6 a 8ºC às actuais, compatíveis com uma actividade industrial e também com uma forte actividade vulcânica. Nesse tempo, na
Antártica floresciam florestas nuns amenos 21ºC de temperatura média, um mundo
sem gelo, até à extinção em massa do Cretáceo circa 66 Milhões de anos
(pe. O PETM – Paleocen-Eocen Thermal Maximum foi há circa 52 Milhões de
anos atrás), em que os registos dos isótopos de carbono mostram picos
semelhantes aos actuais do Antropoceno.
A sedimentação de
nanopartículas de plástico seria também visível a 10.000 anos de distância, mas
adicionando alguns milhões de anos de sedimentação, estaria enterrada,
encoberta e esmagada. Indetectável.
Isto per se não sugere
a existência de uma civilização industrial, mas permite inferir que a sua
hipotética existência possa estar mascarada por outras ocorrências geológicas.
Assim, numa primeira análise, a nossa civilização industrial de 100 anos se
procurada daqui a 60 Milhões de anos pode não mostrar evidências da sua
existência.
Estamos habituados a validar a
existência de antigas civilizações pela evidência de estátuas, paredes, ruínas,
práticas funerárias, o que é aceitável se medirmos o tempo em escala de
milhares de anos. Mas deixa de o ser quando utilizamos escalas de dezenas ou
milhões de anos. Ora quando procuramos evidências materiais de civilizações,
ie. quando procuramos evidência de estátuas, fábricas, pontes, estradas e
edifícios num relógio geológico de milhões de anos a perenidade dos registos
não passa do Quaternário, o que é francamente desanimador porque o Quaternário
ocorreu há apenas uns meros 2,6 Milhões de anos, quando a idade da Terra
ascende a uns provectos 4.000 Milhões de anos. Enquanto tudo isso acontecia,
aparecem os hominídeos que à escala terráquea são jovens de 3 Milhões e ecce
Homo Sapiens, que tem uns meros 300.000 anos.
Daqui decorre um espanto
conceptual. Como podemos inferir do que aconteceu até há 4.000 Milhões de anos
quando apenas existimos há 300.000 anos? [1]
Podemos inferir e deduzir que
nos últimos 300.000 anos, aparentemente, não houve outra civilização industrial,
porque senão teríamos descoberto os tais vestígios de carbono ou nanopartículas
de plástico (ou até vestígios materiais) que a atestassem. E sublinho, “aparentemente”,
bem como “industrial”, uma vez que a hipotética existência de outras
civilizações adiantadas embora não industriais, não está solidamente
estabelecida.
E para trás? 300.000 anos em
relação à idade da Terra representa uma fracção de 0,00075% da sua idade e
acontece que o mais antigo estrato que conseguimos aceder, observar e estudar
com algum detalhe está localizado no deserto do Negev (Israel) e tem apenas uns
juvenis 1,8 Milhões de anos. Mais para trás e salvo alguns fósseis, estamos a
observar poeiras e amálgamas onde é impossível detectar quaisquer vestígios
materiais porque tudo foi esmagado, fundido e virado do avesso; portanto lá se
foram as estradas, pontes edifícios e outras ruínas, impossíveis ou no mínimo
dificílimas de detectar para os períodos mais antigos porque desapareceram
enquanto estruturas sólidas coerentes.
Isto significa, preto no
branco, que poderá ter existido uma outra civilização não humana algures entre
há 2,6 Milhões de anos e a explosão do Câmbrico de há 513 Milhões
de anos. E do Câmbrico aos nossos dias ou até há 2,6 milhões de anos decorre
tempo suficiente para terem existido 1.666 civilizações, se considerarmos
300.000 anos como o tempo médio de desenvolvimento, zénite e ocaso
civilizacional (a hipótese Silúrica).
Uma vez que a única
civilização avançada e industrial que conhecemos tem apenas 100 anos e
desenvolveu-se com vestígios desde há 7.000 anos, então com uma duração
inferior a 100.000 anos poderão ter existido circa 5.000 civilizações,
sem que delas tenhamos conhecimento objectivo. E ao escolher 100.000 anos
estamos a utilizar uma escala de tempo muito curta na qual em termos biológicos
e geológicos é possível e normal, como já vimos, não encontrar qualquer
registo.
Mais
precisamente significa que os grandes mamíferos fósseis do Paleoceno (60
Milhões de anos) ou os répteis do Jurássico (160 a 200 Milhões de anos), poderão
ter alcançado um nível civilizacional e até uma civilização industrial, ou
outra, que tenha durado menos de 100.000 anos, sem que dela nos apercebamos,
pela não existência de registos fósseis nem tampouco outros materiais ou até
registos químicos ou atómicos.
Concluindo e para dar resposta
à questão inicial, não podemos com boa-fé e honestidade intelectual postular
sermos a civilização mais avançada que a Terra alguma vez conheceu.
P. M. Santos Pereira
19/10/2019

