domingo, 5 de janeiro de 2025

A REGRA D'OURO

 

A REGRA DE OURO

Ou Ética da Reciprocidade.

“Trata os outros como gostarias que os outros te tratassem” ou “Faz aos outros aquilo que gostarias que eles te fizessem a ti” – na forma positiva; “Não trates os outros como não gostarias de ser tratado” ou “Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti” – na forma negativa.

A Regra de Ouro é a trave mestra da ética, o cerne da moralidade. Porquê?

Poderia responder alegando que a maior parte das religiões a adoptou, e adiante citarei algumas.

Poderia argumentar que é uma estratégia evolutivamente estável (EEE), mais à frente explico porquê.

Poderia dizer que é uma questão de bom senso.

Porém, como o assunto é ético, ele remete para os conceitos de bem e mal.

Ora sabemos intuitivamente que genericamente o Bom é que nos faz bem e o Mal é que nos faz mal. Como também sabemos que nem tudo o que sabe bem é bom, nem tudo o que sabe mal é mau, e que há uma diferença abissal entre uma torta que sabe bem, que nos pode fazer mal, e ser uma boa pessoa, o que até pode ser um bem. Sabemos que aquilo que é bom nos faz a posteriori sentir bem, tranquilos, saciados e com um sentimento de satisfação e felicidade, e, portanto, aquilo que é bom será virtuoso e por antítese o que é mau será vicioso, sedimentando sensações opostas de ansiedade, insatisfação e infelicidade.

Atendo-nos ao plano moral e em relação aos outros, sabemos intuitivamente que mentir, roubar, enganar, ofender, manipular, prejudicar, ser rude, magoar, ser egoísta, intolerante, ferir, matar, quebrar promessas, faltar à palavra, ser briguento, ganancioso, insensível, aborrecer os outros… é mau.

E também sabemos intuitivamente que ser gentil, justo, modesto, íntegro, sério, empático, cordial, sincero, magnânimo, hospitaleiro, leal, benevolente, honesto, tolerante, amável, altruísta, colaborante… é bom.

Sabemo-lo porque, ao aplicarmos a “REGRA DE OURO”, não gostaríamos de forma alguma que os outros nos fizessem nada daquilo que consideramos mau e pelo contrário ficamos sempre agradados e tocados quando terceiros adoptam alguns daqueles comportamentos que consideramos bons.

Ora daqui decorre uma primeira constatação, a “REGRA DE OURO” é um aferidor que nos permite aferir da bondade dos comportamentos para com terceiros.

E um primeiro corolário: a utilização sistemática da dita regra faz com que o seu utilizador tenha sistematicamente comportamentos bons. Mas, também sabemos que sempre que somos gentis, ajudamos alguém, ou adoptamos algum tipo de comportamento eticamente correcto, obtemos um sentimento de felicidade, tranquilidade interior, paz e prazer pessoal. Sabemos também que é impossível encontrar pessoas felizes entre aquelas que apenas ou sobretudo praticam actos vis, errados e perversos, e sabemos igualmente que a felicidade genuína só pode provir da bondade moral; com efeito, a virtude é a sua própria recompensa, enquanto o vício é a sua própria punição. Segue-se um segundo corolário, como todos os comportamentos moralmente bons são virtudes, a prática continuada desses comportamentos torna o praticante virtuoso, e como a virtude é em si uma recompensa em felicidade e satisfação, a prática continuada da “REGRA DE OURO” torna uma pessoa feliz e satisfeita.

Um terceiro corolário é o efeito multiplicador na “REGRA DE OURO”, um efeito reprodutor, pois as pessoas tendem a aprender umas com as outras, a imitar e emular as outras, e a tratar os outros da forma como são tratados, como se nas relações sociais houvesse uma correlação natural à terceira lei do movimento e variação dos corpos, segundo a qual para toda a acção há sempre uma reacção de igual intensidade, pelo que a adopção continuada da “REGRA DE OURO” promove um círculo virtuoso de comportamentos e sentimentos semelhantes.

A adopção da “REGRA DE OURO” conduz-nos assim a um enriquecimento social e humano, podendo dizer-se antropocêntrica no que o antropocentrismo tem de melhor, porque é uma estratégia que se perpetua e reproduz no tempo sendo pouco vulnerável a estratégias alternativas e concorrentes.  

 

EEE

Uma abordagem evolucionária da “REGRA DE OURO” mostra que ela é sustentável e replicável no longo prazo.

Em termos evolutivos (ou evolucionários), uma estratégia bem-sucedida é aquela que é dominante numa população, tendo uma forte probabilidade de encontrar cópias de si mesma, ie. de se reproduzir, tornando-se uma ESTRATÉGIA EVOLUTIVAMENTE ESTÁVEL (EEE). Se considerarmos que todo o ser humano pretende maximizar o seu próprio sucesso e felicidade, a estratégia que persistirá será aquela que não possa ser superada por nenhum indivíduo com uma estratégia diferente, tendo em vista a obtenção do mesmo fim.

Segue-se que a “REGRA DE OURO” é uma estratégia de cooperação, bondade, entreajuda, lealdade, etc. que no longo prazo supera outras como as de maldade, conflito e engano. Porquê?

Está demostrado (Anatol Rapoport e Robert Axelrod ) que as estratégias “OLHO POR OLHO, de início cooperante” ou “OLHO POR OLHO BONDOSAS” (OOB) são as mais eficazes em termos de EEE. Em que consistem estas estratégias? Começam sempre por ser bondosas e cooperantes, mas se o interlocutor for maldoso como resposta ao “trouxa” que foi bondoso, a próxima acção de "trouxa" será hostil. Porém, se depois de trair, o outro for bondoso, o "trouxa" regressa à bondade, ou seja, estas estratégias não são rancorosas, e, simplificando, cooperam à primeira e depois repetem a jogada do oponente, o que significa que adoptar uma estratégia “OLHO POR OLHO BONDOSA /ou a “DE INÍCIO COOPERANTE” é na prática adoptar a “REGRA DE OURO”.

Este tipo de estratégias, por serem mais eficazes, tenderão a ser preferidas pela generalidade dos agentes. É, com efeito, uma estratégia bondosa, pois nunca é a primeira a ser hostil e maldosa; não é de “trouxas”, porque tem retaliação, sendo hostil sempre que o oponente for maldoso; perdoa, como seria de esperar adoptando a “REGRA DE OURO”; não é invejosa, pois não se preocupa em ganhar mais que o oponente; é clara, porque os oponentes percebem rapidamente que para ganhar devem utilizar a “REGRA DE OURO”; é robusta, porque é bem sucedida em inúmeros cenários; é estável, pois ninguém, de natureza maldosa, consegue prevalecer num ambiente onde a maioria utiliza o “OOB"; e é viável, pois a sua utilização generalizada permite dominar o ambiente.

O que nos dizem as religiões a respeito da “REGRA DE OURO”?

A "Declaração para uma Ética Global", feita no âmbito do Parlamento das Religiões Mundiais em 1993, proclamou a “REGRA DE OURO” como o princípio comum à maioria das religiões. A Declaração Inicial foi assinada por 143 líderes de todas as principais religiões do mundo, entre outras: Baha'i, Brahmanismo, Brahma Kumaris, Budismo, Cristianismo, Hinduísmo, Indígena, Inter-religioso, Islã, Jainismo, Judaísmo, Nativo Americano, Neopaganismo, Sikhismo, Taoísmo, Teosofismo, Unitarismo Universalista e Zoroastrianismo.

A “REGRA DE OURO” está, além do mais, bem presente nas três religiões abraâmicas: Cristianismo, Judaísmo e Islão.

“Amar o próximo como a si mesmo” é um enunciado alternativo ao da “REGRA DE OURO”, derivado do princípio da autopreservação subjacente a todos os seres vivos. Ora, se qualquer indivíduo tem como tendência e desejo inato a sua autoconservação, é certamente porque se ama a si próprio, pois ninguém quererá preservar o que não gosta. Aqueles que se autodestroem ou mutilam, aqueles que procuram a via do suicídio, na maior parte dos casos, é porque não se gostam e não se amam a si mesmo o suficiente para se manterem vivos.

Ora se todo o ser humano é um ser vivo e todo o ser humano por tendência inata se autopreserva ele vai desejar viver o que implica desejar para si o melhor: melhores condições de subsistência, sobrevivência, enriquecimento e reprodução; logo, se amar os outros como a si mesmo, vai desejar aos outros como para si próprio, e, portanto, vai querer que os outros subsistam, reproduzam, e enriqueçam como ele mesmo.

A Torah refere-lhe especificamente no Levítico 19, 34, e cito:

“ao estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-ás como a ti mesmo, pois estrangeiros fostes na terra do Egipto: Eu sou o Senhor vosso Deus”.

E, ainda no Levítico 19:18, depois de enumerar a maioria das obrigações e comportamentos perversos termina com:

“não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

O rabino Hilel, o Ancião, expressou-o no Talmude Babilónio dizendo:

“o que é odioso para ti, não o faças ao teu companheiro: esta é toda a Torah; o resto é a explicação; vai e aprende” (Shabbath folio:31a).

Reconhecendo o amor fraternal como o fundamento de toda a ética judaica, porque todo o homem é descendente de Adão, que foi feito à imagem de Deus; decorre que para cumprir o mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas é necessário amar os outros por terem sido criados à imagem desse mesmo Deus.

Não estranha então o relato de Mateus (22:37-39), sobre a resposta de Jesus à pergunta dos fariseus acerca do Grande Mandamento, este ter respondido:

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento! Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.

Ainda em Mateus 7:12 diz-se:

“tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhe também vós, porque esta é a lei”.

E Lucas 6:31:

“como vós quereis que vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também”.

Ainda em Lucas 10:25-28, na parábola do Bom Samaritano:

“Eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o e dizendo: - Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?

E ele lhe disse: - O que está escrito na lei? Como a lês?

E respondendo ele, disse: - Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.

E disse-lhe: - Respondeis bem; fazei isso, e vivereis”.

A passagem do evangelho de Lucas continua com Jesus respondendo à pergunta, "Quem é meu próximo?” Onde na prédica vai além da formulação negativa, de não fazer a outrem o que não gostaria que fizessem a si mesmo, para uma formulação positiva, de fazer activamente bem ao outro, porque se as situações se invertessem, era isso que desejaria que o outro lhe fizesse a ele. Essa formulação positiva, na parábola do Bom Samaritano, realça a necessidade de acções positivas que tragam benefícios aos outros, em vez de simplesmente restringir as acções negativas, que prejudicam terceiros.

Paulo não ficou calado e sobre esta questão, em Romanos 13:8-9 diz que “a ninguém devais coisa alguma a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei… e se há algum mandamento tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”; e em Gálatas 5:14 “Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.

O Islão, no seu corpo de leis canónicas e lendas conhecidos por Hadiths, refere a “REGRA DE OURO” várias vezes, da qual cito os seguintes excertos.

Em Kitab al-Kafi:

“Um beduíno acercou-se do profeta, agarrou no estribo do camelo e perguntou-lhe: Ó mensageiro de Deus! Ensina-me algo que me leve para o Céu. O profeta respondeu: Como vós gostais que as pessoas vos fizésseis, fazei-o a elas; e o que vós não gostais que vos seja feito, não o façais a elas. Agora, largai o estribo! Esta máxima vos é suficiente; ide e agi de acordo!"

A tradição hindu, refere-se lhe, por exemplo, em An-Nawawi's Forty Hadith 13:

“Nenhum de vocês acredita de verdade até que deseje para o seu irmão o que deseja para si mesmo”.

Em Sukhanan-i-Muhammad:

“Procurai para a humanidade aquilo de que vós desejais para vós próprios, para que possais ser um crente”.

E, o Brihaspati, Mahabharata 13.114.8, reza:

“Nunca se deve fazer a outra pessoa o que considera prejudicial a si mesmo. Esta, em resumo, é a regra do dharma. Qualquer outro comportamento é devido a desejos egoístas… Ao fazer do dharma o seu principal foco, trate os outros como você trata a si mesmo”.

Na tradição budista, Siddhartha Gautama fez deste princípio um dos pilares da sua ética, aparecendo amiúde no Tripitaka. Na Sutta Nipata 705, diz comparando-se a outras pessoas em termos como:

"Assim como eu sou, eles são, assim como eles são, assim eu sou"

No Dhammapada 10:

“Aquele que, enquanto busca a felicidade, oprime com violência outros seres, que também desejam a felicidade, não alcançará no futuro a felicidade”.

No Udanavarga 5:18

“Não prejudique os outros de forma que vós mesmo as consideraríeis dolorosas”.

A filosofia antiga não esteve imune à “REGRA DE OURO”. O estoicismo que perdurou por séculos e se tornou um passageiro clandestino do cristianismo, não a esqueceu, e temos Séneca nas Cartas a Lucílio, a aconselhar "Trate o seu inferior como gostaria que seu superior o tratasse."

Vários dos pensadores gregos proferiram declarações claras a esse respeito, entre outros, Thales de Mileto, um dos sete sábios da Grécia: "Evitai fazer o que vós culparíeis os outros por fazerem"; Sextus o Pitagórico, citado por Orígenes: “O que não quereis que vos aconteça, não o façais vós mesmo”; e Isócrates: "Não faças aos outros aquilo que te irrita quando eles to fazem a ti".

Os textos Pahlavi do Zoroastrismo persa foram uma das primeiras fontes para a Regra de Ouro:

"Tem um bom fundo aquele que se abstém de fazer a outro tudo o que não é bom para si mesmo." (Dadisten-I-dinik, 94,5) 

"Tudo o que for desagradável para si mesmo, não o faça aos outros." (Shayast-na-Shayast 13:29)

O confucionismo refere-se-lhe nos Anacletos XV.24. Zi Gong, um discípulo de Confúcio, perguntou:

"Existe alguma palavra que possa guiar uma pessoa ao longo da vida?

O Mestre respondeu: "Que tal 'shu' [reciprocidade]: Nunca imponha aos outros o que você não escolheria para si mesmo?"

E esta pérola taoista no Tao Te Ching, no capítulo 49:

“O sábio não tem interesses próprios, mas considera os interesses do povo como seus. Ele é gentil com os gentis; ele também é gentil com os rudes: pois a virtude é gentil. Ele é fiel aos fiéis; ele também é fiel ao infiel: pois a virtude é fiel”.

Provavelmente a mais antiga afirmação conhecida da “REGRA DE OURO” vem do Egipto ao tempo do Império Médio (c. 2040–1650 aC), e encontramo-la num mandamento da deusa Ma'at, proferido na história de “O Camponês Eloquente”:

"Agora, esta é a ordem: Faça ao fazedor para ele também o fazer"

Em síntese, a “REGRA DE OURO” tem uma profundidade e extensão inexcedível. É humanista, é civilizacional, é evolutivamente sustentável, é postulada pela generalidade dos credos religiosos, filosóficos e é racionalmente irrefutável. É, com efeito, um dos poucos aspectos e crenças mais aceite pela generalidade das pessoas independentemente do credo, etnia, cultura, opção política, ou filosófica.

A maioria dos problemas no mundo existem devido à não utilização dessa mesma regra. A maioria dos problemas do mundo resolver-se-iam pela adopção da “REGRA DE OURO”.


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