A REGRA DE OURO
Ou Ética da Reciprocidade.
“Trata os outros como gostarias que os outros
te tratassem” ou “Faz aos outros aquilo que gostarias que
eles te fizessem a ti” – na forma positiva; “Não trates os outros como
não gostarias de ser tratado” ou “Não faças aos outros o que não
gostarias que te fizessem a ti” – na forma negativa.
A Regra de Ouro é a trave mestra da ética, o cerne da
moralidade. Porquê?
Poderia responder alegando que a maior parte das religiões
a adoptou, e adiante citarei algumas.
Poderia argumentar que é uma estratégia evolutivamente estável
(EEE), mais à frente explico porquê.
Poderia dizer que é uma questão de bom senso.
Porém, como o assunto é ético, ele remete para os conceitos
de bem e mal.
Ora sabemos intuitivamente que genericamente o Bom é que
nos faz bem e o Mal é que nos faz mal. Como também sabemos que nem tudo o que sabe
bem é bom, nem tudo o que sabe mal é mau, e que há uma diferença abissal entre
uma torta que sabe bem, que nos pode fazer mal, e ser uma boa pessoa, o que até
pode ser um bem. Sabemos que aquilo que é bom nos faz a posteriori sentir bem,
tranquilos, saciados e com um sentimento de satisfação e felicidade, e,
portanto, aquilo que é bom será virtuoso e por antítese o que é mau será
vicioso, sedimentando sensações opostas de ansiedade, insatisfação e
infelicidade.
Atendo-nos ao plano moral e em relação aos outros, sabemos
intuitivamente que mentir, roubar, enganar, ofender, manipular, prejudicar, ser
rude, magoar, ser egoísta, intolerante, ferir, matar, quebrar promessas, faltar
à palavra, ser briguento, ganancioso, insensível, aborrecer os outros… é mau.
E também sabemos intuitivamente que ser gentil, justo, modesto,
íntegro, sério, empático, cordial, sincero, magnânimo, hospitaleiro, leal,
benevolente, honesto, tolerante, amável, altruísta, colaborante… é bom.
Sabemo-lo porque, ao aplicarmos a “REGRA DE OURO”, não
gostaríamos de forma alguma que os outros nos fizessem nada daquilo que consideramos
mau e pelo contrário ficamos sempre agradados e tocados quando terceiros adoptam
alguns daqueles comportamentos que consideramos bons.
Ora daqui decorre uma primeira constatação, a “REGRA DE
OURO” é um aferidor que nos permite aferir da bondade dos comportamentos
para com terceiros.
E um primeiro corolário: a utilização sistemática
da dita regra faz com que o seu utilizador tenha sistematicamente
comportamentos bons. Mas, também sabemos que sempre que somos gentis,
ajudamos alguém, ou adoptamos algum tipo de comportamento eticamente correcto, obtemos
um sentimento de felicidade, tranquilidade interior, paz e prazer pessoal. Sabemos
também que é impossível encontrar pessoas felizes entre aquelas que apenas ou
sobretudo praticam actos vis, errados e perversos, e sabemos igualmente que a
felicidade genuína só pode provir da bondade moral; com efeito, a virtude é a
sua própria recompensa, enquanto o vício é a sua própria punição. Segue-se um segundo
corolário, como todos os comportamentos moralmente bons são virtudes, a
prática continuada desses comportamentos torna o praticante virtuoso, e como a
virtude é em si uma recompensa em felicidade e satisfação, a prática continuada
da “REGRA DE OURO” torna uma pessoa feliz e satisfeita.
Um terceiro corolário é o efeito multiplicador na “REGRA
DE OURO”, um efeito reprodutor, pois as pessoas tendem a aprender umas com
as outras, a imitar e emular as outras, e a tratar os outros da forma como são
tratados, como se nas relações sociais houvesse uma correlação natural à
terceira lei do movimento e variação dos corpos, segundo a qual para toda a
acção há sempre uma reacção de igual intensidade, pelo que a adopção
continuada da “REGRA DE OURO” promove um círculo virtuoso de comportamentos e
sentimentos semelhantes.
A adopção da “REGRA DE OURO” conduz-nos assim a um
enriquecimento social e humano, podendo dizer-se antropocêntrica no que o
antropocentrismo tem de melhor, porque é uma estratégia que se perpetua e
reproduz no tempo sendo pouco vulnerável a estratégias alternativas e
concorrentes.
EEE
Uma abordagem evolucionária da “REGRA DE OURO”
mostra que ela é sustentável e replicável no longo prazo.
Em termos evolutivos (ou evolucionários), uma estratégia bem-sucedida
é aquela que é dominante numa população, tendo uma forte probabilidade de
encontrar cópias de si mesma, ie. de se reproduzir, tornando-se uma ESTRATÉGIA
EVOLUTIVAMENTE ESTÁVEL (EEE). Se considerarmos que todo o ser humano pretende
maximizar o seu próprio sucesso e felicidade, a estratégia que persistirá será
aquela que não possa ser superada por nenhum indivíduo com uma estratégia
diferente, tendo em vista a obtenção do mesmo fim.
Segue-se que a “REGRA DE OURO” é uma estratégia de cooperação,
bondade, entreajuda, lealdade, etc. que no longo prazo supera outras como as de
maldade, conflito e engano. Porquê?
Está demostrado (Anatol Rapoport e Robert
Axelrod ) que as estratégias “OLHO POR OLHO, de início cooperante” ou “OLHO POR
OLHO BONDOSAS” (OOB) são as mais eficazes em termos de EEE. Em que consistem
estas estratégias? Começam sempre por ser bondosas e cooperantes, mas se o interlocutor
for maldoso como resposta ao “trouxa” que foi bondoso, a próxima acção de
"trouxa" será hostil. Porém, se depois de trair, o outro for bondoso,
o "trouxa" regressa à bondade, ou seja, estas estratégias não são
rancorosas, e, simplificando, cooperam à primeira e depois repetem a jogada do
oponente, o que significa que adoptar uma estratégia “OLHO POR OLHO BONDOSA /ou
a “DE INÍCIO COOPERANTE” é na prática adoptar a “REGRA DE OURO”.
Este tipo de estratégias, por serem mais
eficazes, tenderão a ser preferidas pela generalidade dos agentes. É, com
efeito, uma estratégia bondosa, pois nunca é a primeira a ser hostil e maldosa;
não é de “trouxas”, porque tem retaliação, sendo hostil sempre que o oponente for
maldoso; perdoa, como seria de esperar adoptando a “REGRA DE OURO”; não
é invejosa, pois não se preocupa em ganhar mais que o oponente; é clara, porque
os oponentes percebem rapidamente que para ganhar devem utilizar a “REGRA DE
OURO”; é robusta, porque é bem sucedida em inúmeros cenários; é estável, pois
ninguém, de natureza maldosa, consegue prevalecer num ambiente onde a maioria utiliza
o “OOB"; e é viável, pois a sua utilização generalizada permite dominar o
ambiente.
O que nos dizem as religiões a respeito da “REGRA DE
OURO”?
A "Declaração para uma Ética Global", feita no
âmbito do Parlamento das Religiões Mundiais em 1993, proclamou a “REGRA DE
OURO” como o princípio comum à maioria das religiões. A Declaração Inicial
foi assinada por 143 líderes de todas as principais religiões do mundo, entre
outras: Baha'i, Brahmanismo, Brahma Kumaris, Budismo, Cristianismo, Hinduísmo,
Indígena, Inter-religioso, Islã, Jainismo, Judaísmo, Nativo Americano, Neopaganismo,
Sikhismo, Taoísmo, Teosofismo, Unitarismo Universalista e Zoroastrianismo.
A “REGRA DE OURO” está, além do mais, bem presente
nas três religiões abraâmicas: Cristianismo, Judaísmo e Islão.
“Amar o próximo como a si mesmo” é um
enunciado alternativo ao da “REGRA DE OURO”, derivado do princípio da
autopreservação subjacente a todos os seres vivos. Ora, se qualquer indivíduo
tem como tendência e desejo inato a sua autoconservação, é certamente porque se
ama a si próprio, pois ninguém quererá preservar o que não gosta. Aqueles que
se autodestroem ou mutilam, aqueles que procuram a via do suicídio, na maior
parte dos casos, é porque não se gostam e não se amam a si mesmo o suficiente
para se manterem vivos.
Ora se todo o ser humano é um ser vivo e todo o ser humano
por tendência inata se autopreserva ele vai desejar viver o que implica desejar
para si o melhor: melhores condições de subsistência, sobrevivência,
enriquecimento e reprodução; logo, se amar os outros como a si mesmo, vai
desejar aos outros como para si próprio, e, portanto, vai querer que os outros
subsistam, reproduzam, e enriqueçam como ele mesmo.
A Torah refere-lhe especificamente no Levítico 19, 34, e
cito:
“ao estrangeiro que peregrina convosco;
amá-lo-ás como a ti mesmo, pois estrangeiros fostes na terra do Egipto: Eu sou
o Senhor vosso Deus”.
E, ainda no Levítico 19:18, depois de enumerar a maioria das
obrigações e comportamentos perversos termina com:
“não te vingarás nem guardarás ira contra os
filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
O rabino Hilel, o Ancião, expressou-o no Talmude Babilónio
dizendo:
“o que é odioso para ti, não o faças ao teu
companheiro: esta é toda a Torah; o resto é a explicação; vai e aprende” (Shabbath
folio:31a).
Reconhecendo o amor fraternal como o fundamento de toda a
ética judaica, porque todo o homem é descendente de Adão, que foi feito à
imagem de Deus; decorre que para cumprir o mandamento de amar a Deus sobre
todas as coisas é necessário amar os outros por terem sido criados à imagem
desse mesmo Deus.
Não estranha então o relato de Mateus (22:37-39), sobre a
resposta de Jesus à pergunta dos fariseus acerca do Grande Mandamento, este ter
respondido:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu
coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento! Este é o primeiro e
grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás
ao teu próximo como a ti mesmo”.
Ainda em Mateus 7:12 diz-se:
“tudo o que vós quereis que os homens vos façam,
fazei-lhe também vós, porque esta é a lei”.
E Lucas 6:31:
“como vós quereis que vos façam, da mesma
maneira lhes fazei vós, também”.
Ainda em Lucas 10:25-28, na parábola do Bom Samaritano:
“Eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o
e dizendo: - Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?
E ele lhe disse: - O que está escrito na lei?
Como a lês?
E respondendo ele, disse: - Amarás ao Senhor,
teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todas as tuas forças
e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
E disse-lhe: - Respondeis bem; fazei isso, e
vivereis”.
A passagem do evangelho de Lucas continua com Jesus
respondendo à pergunta, "Quem é meu próximo?” Onde na prédica vai além da
formulação negativa, de não fazer a outrem o que não gostaria que fizessem a si
mesmo, para uma formulação positiva, de fazer activamente bem ao outro, porque se
as situações se invertessem, era isso que desejaria que o outro lhe fizesse a ele.
Essa formulação positiva, na parábola do Bom Samaritano, realça a necessidade de
acções positivas que tragam benefícios aos outros, em vez de simplesmente
restringir as acções negativas, que prejudicam terceiros.
Paulo não ficou calado e sobre esta questão, em Romanos
13:8-9 diz que “a ninguém devais coisa alguma a não ser o amor com que vos
ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei… e se há algum
mandamento tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”;
e em Gálatas 5:14 “Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta:
Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
O Islão, no
seu corpo de leis canónicas e lendas conhecidos por Hadiths, refere a “REGRA
DE OURO” várias vezes, da qual cito os seguintes excertos.
Em Kitab al-Kafi:
“Um beduíno acercou-se do profeta,
agarrou no estribo do camelo e perguntou-lhe: Ó mensageiro de Deus! Ensina-me
algo que me leve para o Céu. O profeta respondeu: Como vós gostais que as
pessoas vos fizésseis, fazei-o a elas; e o que vós não gostais que vos seja
feito, não o façais a elas. Agora, largai o estribo! Esta máxima vos é
suficiente; ide e agi de acordo!"
A tradição hindu, refere-se lhe, por exemplo, em An-Nawawi's
Forty Hadith 13:
“Nenhum de vocês acredita de
verdade até que deseje para o seu irmão o que deseja para si mesmo”.
Em Sukhanan-i-Muhammad:
“Procurai para a humanidade
aquilo de que vós desejais para vós próprios, para que possais ser um crente”.
E, o Brihaspati, Mahabharata 13.114.8,
reza:
“Nunca se deve fazer a outra pessoa o
que considera prejudicial a si mesmo. Esta, em resumo, é a regra do dharma. Qualquer
outro comportamento é devido a desejos egoístas… Ao fazer do dharma o seu
principal foco, trate os outros como você trata a si mesmo”.
Na tradição budista, Siddhartha Gautama fez deste princípio um dos pilares da sua ética,
aparecendo amiúde no Tripitaka. Na Sutta Nipata 705, diz comparando-se a outras
pessoas em termos como:
"Assim como eu sou, eles são, assim
como eles são, assim eu sou"
No Dhammapada 10:
“Aquele que, enquanto busca a
felicidade, oprime com violência outros seres, que também desejam a felicidade,
não alcançará no futuro a felicidade”.
No Udanavarga 5:18
“Não prejudique os outros de forma que vós
mesmo as consideraríeis dolorosas”.
A filosofia antiga não esteve imune à “REGRA DE OURO”. O estoicismo que perdurou por séculos e se tornou um passageiro
clandestino do cristianismo, não a esqueceu, e temos Séneca nas Cartas a
Lucílio, a aconselhar "Trate o seu inferior como gostaria que seu
superior o tratasse."
Vários dos pensadores gregos proferiram declarações
claras a esse respeito, entre outros, Thales de Mileto, um dos sete sábios da
Grécia: "Evitai fazer o que vós culparíeis os outros por fazerem";
Sextus o Pitagórico, citado por Orígenes: “O que não quereis que vos aconteça,
não o façais vós mesmo”; e Isócrates: "Não faças aos outros aquilo
que te irrita quando eles to fazem a ti".
Os textos Pahlavi do Zoroastrismo persa foram
uma das primeiras fontes para a Regra de Ouro:
"Tem um bom fundo aquele que se
abstém de fazer a outro tudo o que não é bom para si mesmo." (Dadisten-I-dinik, 94,5)
"Tudo o que for desagradável para si
mesmo, não o faça aos outros." (Shayast-na-Shayast
13:29)
O confucionismo refere-se-lhe nos Anacletos XV.24. Zi Gong, um discípulo de
Confúcio, perguntou:
"Existe alguma palavra que possa
guiar uma pessoa ao longo da vida?
O Mestre respondeu: "Que tal 'shu' [reciprocidade]: Nunca imponha aos outros o que você não
escolheria para si mesmo?"
E esta pérola taoista no Tao Te Ching, no
capítulo 49:
“O sábio não tem interesses próprios, mas
considera os interesses do povo como seus. Ele é gentil com os gentis; ele
também é gentil com os rudes: pois a virtude é gentil. Ele é fiel aos fiéis;
ele também é fiel ao infiel: pois a virtude é fiel”.
Provavelmente a mais antiga afirmação conhecida
da “REGRA DE OURO” vem do Egipto ao tempo do Império Médio (c. 2040–1650 aC), e encontramo-la
num mandamento da deusa Ma'at, proferido na história de “O Camponês Eloquente”:
"Agora, esta é a ordem: Faça ao fazedor
para ele também o fazer"
Em síntese, a “REGRA DE OURO” tem uma profundidade e
extensão inexcedível. É humanista, é civilizacional, é evolutivamente
sustentável, é postulada pela generalidade dos credos religiosos, filosóficos e
é racionalmente irrefutável. É, com efeito, um dos poucos aspectos e crenças
mais aceite pela generalidade das pessoas independentemente do credo, etnia,
cultura, opção política, ou filosófica.
A maioria dos problemas no mundo existem devido à não utilização
dessa mesma regra. A maioria dos problemas do mundo resolver-se-iam pela
adopção da “REGRA DE OURO”.
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